A Federação que não é nem de longe o “último biscoito do pacote”

Mário Flávio - 10.04.2026 às 13:43h

A criação da federação entre União Brasil e Progressistas foi vendida como um movimento estratégico capaz de consolidar um bloco político robusto, com força para influenciar decisões em todo o país. A promessa era de unidade e protagonismo. Mas, na prática, o que se observa — especialmente em Pernambuco — é um cenário de fragilidade, indefinição e perda de espaço político.

Os sinais de desgaste já aparecem no plano nacional. Desde a consolidação da federação, ao menos 29 deputados federais deixaram o União Brasil, muitos deles migrando para siglas como o PL e o Republicanos, além de outras legendas do campo de centro-direita. A debandada expõe dificuldades de convivência interna e enfraquece o discurso de bloco coeso que motivou a união entre os partidos.

Em Pernambuco, a condução política do presidente estadual do PP, Eduardo da Fonte, tem sido alvo de críticas tanto de aliados da governadora Raquel Lyra quanto do grupo liderado por João Campos. A ausência de uma posição clara sobre qual palanque apoiar em 2026 tem deixado a federação sem norte e provocado insatisfação entre os próprios parlamentares.

Esse vácuo de liderança também afetou diretamente o próprio Eduardo da Fonte. Antes cotado como nome competitivo para o Senado, ele perdeu espaço nas articulações das duas principais chapas em formação no Estado, reduzindo sua influência no jogo político.

Enquanto isso, dentro da própria federação, há movimentos que evidenciam ainda mais a falta de unidade. O presidente estadual do União Brasil, Miguel Coelho, já declarou publicamente apoio à reeleição de Raquel Lyra e trabalha para viabilizar seu nome como candidato ao Senado na chapa governista. Ou seja, enquanto um dos pilares da federação sinaliza um caminho, o outro mantém postura indefinida — um retrato claro da desarticulação interna.

Na Assembleia Legislativa, o cenário também reflete essa confusão. O líder do PP, Henrique Queiroz Filho, veio a público explicar que o partido adotou posição de independência na Casa por uma questão administrativa, para garantir autonomia na indicação de membros às comissões. Segundo ele, a legenda precisava formalizar essa condição para não depender mais da liderança do governo nessas decisões.

Apesar disso, o parlamentar fez questão de afirmar que, politicamente, o posicionamento em relação à governadora não mudou. A declaração, no entanto, acabou ampliando a percepção de ambiguidade, já que o discurso administrativo não foi suficiente para conter as cobranças internas nem esclarecer o rumo político da federação. Ou seja, praticamente desautorizou a Eduardo da Fonte.

O resultado é um bloco que tenta manter diálogo com todos os lados, mas acaba sem identidade própria. Deputados atuam sem uma orientação unificada, lideranças divergem publicamente e o espaço político da federação diminui à medida que o cenário eleitoral se organiza.

Diante desse contexto, fica evidente que a federação União/Progressistas está longe de ser “o último biscoito do pacote”, como alguns tentam propagar. Pelo contrário: enfrenta um momento de desgaste, perda de quadros e, principalmente, de direção política — um problema que pode custar caro nas eleições de 2026.