31 de março de 2014 às 09h55min - Por Mário Flávio

20140331-090913.jpgPor Tâmara Pinheiro. Do Livro: Relatos da ditadura em Caruaru – Histórias que os livros não contam

“Eu não tive muita sorte com meu relacionamento com o Exército”. Esta relação conturbada começou bem antes do ano de 1964. Ao completar 18 anos e atingir a maioridade legal, Assis Claudino fez o que todos os brasileiros devem fazer: se alistar nas Forças Armadas Brasileiras. Chegando ao quartel, a história passou de um ato comum para um grande problema. No dia que eu me apresentei, o responsável pelo recebimento das fichas, olhou a minha e me deu uma bronca. A situação foi muito constrangedora, e como sempre fui muito tímido, fiquei sem saber como agir.

Assis ficou detido no quartel até as 18 horas, quando a mesma pessoa que lhe deu a bronca pediu para ele voltar para fazer os exames médicos para ser habilitado a servir o Exército. Após este procedimento, ele por fim não passou e não estava apto a servir. Precisava apenas pegar seus documentos. Só que uma situação voltou a deixar Sissi confuso. “Eu fiquei de passar depois para apanhar os meus documentos, só que me cobraram 300 cruzeiros. Como não podia pagar, deixei para lá.
Algum tempo depois, ao procurar saber do processo para a retirada dos documentos, descobriu que não precisava pagar por nada”.

Em 1956, outro equívoco fez com que a relação ficasse mais confusa. A polícia militar de Caruaru havia prendido neste ano três homens acusados de práticas comunistas. Um deles era amigo de Assis Claudino. Por causa disso, Assis, foi fazer uma visita ao conhecido na prisão. Foi a hora errada e o lugar errado. Ao chegar à prisão, os policiais prenderam Claudino, com base na idéia de que “quem era amigo de comunista também era comunista”, mesmo não sendo filiado a nenhum partido comunista.

Foi preso no dia 23 de janeiro de 1956 e identificado sob o nº 30.808, por “exercer atividades subversivas” na cidade de Caruaru, segundo consta em documentos da Secretaria de Segurança de Pernambuco. Os presos, entre eles Assis, foram levados para a Secretaria de Segurança, no Recife. Foram seis dias presos, em um ambiente pouco confortável.

“Ficamos incomunicáveis comíamos apenas pão e água, dormimos de cueca no chão duro. Esse foi meu batismo de fogo e a prova que idéias políticas contrárias eram duramente punidas. Foi horrível dormir na prisão, misturado com marginais”. Essa foi a primeira experiência com a cadeia. Assis Claudino, como muitos brasileiros, soube da tomada do poder pelos militares através do rádio.

Estava em Caruaru e no momento que foi anunciada a então chamada Revolução Militar, o clima de apreensão tomou conta dele. Mesmo não sendo radical da esquerda, ele se sentiu ameaçado. E seu medo se confirmou, com sua prisão no mesmo ano. Durante pouco tempo foi detido cerca de sete vezes, até que no mês de agosto de 1964 teve a mais longa estadia em uma prisão. Ele e mais dez pessoas foram detidas e levadas para o Quartel do Socorro, em Jaboatão dos Guararapes, hoje nomeado 14º Batalhão de Infantaria Motorizada do Exército. Com 30 dias preso, sofreu mais um baque. Do grupo de dez, apenas três tiveram a prisão decretada, entre eles estava o nome Francisco de Assis Claudino.

“Fiquei péssimo. Eu vi meus companheiros saindo e eu ficando, sem saber o que iria acontecer, me bateu certo desespero”. Assis passou mais 45 dias, totalizando 75 dias preso no quartel. Durante este tempo não sofreu tortura, porém estava na expectativa de saber quando enfim poderia ganhar liberdade. O apelo de amigos, políticos e familiares, culminaram com o relaxamento da prisão, concedido pelo Tribunal Superior Militar. Mas, mesmo saindo da prisão, os tempos ainda continuariam difíceis.

Tempos Nebulosos – Em liberdade, voltou para Caruaru, disposto a continuar sua vida. Só que, após sua prisão, a vida tomou rumos diferentes do que ele pensava. Continuou sendo processado pelo Tribunal Militar, o que fez perder o emprego no BANORTE. Como não possuía mais renda fixa, não seguiu com seu curso superior em Direito, pela Faculdade de Direito de Caruaru, a Fadica. Também foi demitido do Colégio Sete de Setembro, onde lecionava matérias da área de humanas, como Português e Literatura. “O diretor do colégio não deu motivo para minha demissão. Mas eu sabia que era o medo de ter um subversivo como funcionário”.

Esses fatos abalaram psicologicamente e financeiramente Claudino. Tentou abrir seu próprio negócio, uma loja de calçados, mas não deu muito certo. “Ninguém queria comprar em loja de comunista. Esses acontecimentos me abalaram psicologicamente com muita intensidade”. Teve depressão e parou até de fazer uma das atividades que mais gostava: ficou mais de 20 anos sem publicar notas ou artigos em veículos de comunicação da região.

Além de fecharem todas as portas profissionais, também cercaram sua liberdade. Foi rejeitado por muitos caruaruenses, fato que ficou comprovado quando saía pelas ruas.
Certo dia, foi tomar um café, como sempre fazia, no Café Rio Branco, vizinho à Igreja Nossa das Dores, a Catedral. Até que uma senhora notou sua presença e bradou:

“Ele está solto, nas ruas. Isto é um absurdo!”. Assis descreve a situação, lembrando o quão desagradável foi, naquele momento. Foi diagnosticado com depressão e chegou a pensar no suicídio. “É uma situação horrível, eu vivia permanentemente em tensão. Não sabia o que podia acontecer, o que podiam fazer contra mim”.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro