10 de maio de 2012 às 19h12min - Por Mário Flávio

O deputado federal Wolney Queiroz usou à Tribuna da Câmara para lamentar a morte do ex-deputado José Guimarães Neiva Moreira. Esquerdista histórico, Neiva era una referência do PDT. Segue na íntegra o discurso:

É com profundo pesar que comunicamos aos nobres pares e aos integrantes do PDT o falecimento do ex-Deputado Federal José Guimarães Neiva Moreira, ocorrido esta madrugada, em São Luiz do Maranhão, vítima de  infecção respiratória, aos 94 anos de idade.

Jornalista de formação, Neiva Moreira nasceu em 10 de outubro de 1917, sob o signo, portanto, da Revolução Russa, que tantos auspícios suscitaria em todos quantos acalentavam o sonho e a visão de um novo mundo,  numa Europa convulsionada pelos conflitos entre o capital e o trabalho, na histórica trilha aberta pelo Manifesto de Marx e Engels e pela combatividade da Internacional Socialista.

Neiva Moreira escolheria as trincheiras da imprensa  para exercer o honroso  ofício da denúncia das mazelas sociais e da insurgência corajosa contra o arbítrio das tiranias. Livrou suas ingentes batalhas pela promoção da liberdade e pelo primado da ética na política nos  mais prestigiados veículos da imprensa nacional da época, como o Diário de Notícias, o Diário da Noite e a revista Cruzeiro, desempenhando uma brilhante trajetória de repórter politico.

O pendor nato da palavra conduziu às tribunas dos Parlamentos, primeiramente da Assembleia de seu Estado, onde iniciou uma prolífica atuação parlamentar que lhe renderia meritoriamente três mandatos consecutivos na Câmara Federal. Nesta Casa, Neiva Moreira houve-se com hombridade e distinção e desempenhou-se  em diversas Comissões, na Liderança da Minoria, na Frente Parlamentar Nacionalista e na Mesa Diretora.

Em 1961, aproximou-se de um dos maiores timoneiros da política brasileira, o lendário ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, com quem empreendeu, com espírito autenticamente quixotesco, uma cruzada por todo o território nacional, pregando as reformas de base do Presidente João Goulart e  galvanizando as falanges nacionalistas contra o espectro do autoritarismo que já rondava o poder, na quadratura política da época.

Em 1964, a trajetória política de Neiva sucumbiria à ação despótica dos beleguins da caserna, que lhe ceifaram arbitrariamente o mandato popular e o prenderam. Tendo recuperado inesperadamente a liberdade, Neiva percorreria a via crucis do exílio por longos quinze anos, no Uruguai, na Argentina, no Peru e no México. Apesar das adversidades da conjuntura política no Cone Sul, a flama retórica de Neiva não bruxuleou, e sua combatividade politica se exerceu pela destacada participação na imprensa alternativa daqueles países, sobre os quais, no entanto,  sucessivamente se estenderia o manto sombrio das ditaduras dos anos d e chumbo.

Com a anistia, Neiva regressa ao Brasil, reencontra-se com a política e, como demonstração eloquente de coerência ideológica e de lealdade às aspirações politicas da juventude,  filia-se ao PDT e estrutura a regional maranhense. Em 1990, no exercício da suplência, atua no Congresso revisor, de 1993 a 1994. Em 1997, retorna à Câmara Federal, onde exerceria seu mandato  até 1999. Reeleito naquele ano e em 2003, licenciou-se para assumir o cargo de Secretário Extraordinário Municipal de Assuntos Políticos de São Luiz.

Fomos deputados juntos nesta Casa e Neiva esteve ao meu lado, me apoiando, nos momentos mais importantes que enfrentei no PDT. Como líder da bancada, em 1997, Neiva Moreira indicou-me para presidir a Comissão de Educação da Câmara dos Deputados e, anos depois, na disputa interna que travamos pelo controle do Partido no estado, foi Neiva quem deu a testemunho decisivo a nosso favor.

Nesta hora dolorosa, o PDT não poderia deixar de render esse justo e singelo tributo a Neiva Moreira por ocasião de seu passamento, nem de externar suas condolências a familiares e amigos do pranteado.

E o faz com justo orgulho pela qualidade do quadro que perde, mas também pela envergadura moral, pela combatividade sem trégua, pelos atributos intelectuais que  eram apanágio de Neiva, pela obra que tão bem ele realizou e pelo legado político  que generosamente deixou. Mas sobretudo pelo imorredouro exemplo conspícuo de parrésia política que tão galhardamente consubstanciou e que deve ser exaltado para que sirva de modelo às vindouras gerações de nossa pátria.

Senhor presidente, senhoras deputadas, senhores deputados, era o que eu tinha a dizer.
Muito obrigado.

 


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro