29 de dezembro de 2013 às 11h03min - Por Mário Flávio

Ao longo do tempo estabeleceu-se a tradição de trocar presentes durante as comemorações do natal, inspirados na história dos reis magos que presentearam Jesus. Ao passar dos séculos, as famílias aproveitaram as celebrações natalinas para estimular nos filhos os bons comportamentos, afinal só os bem comportados ganhariam presentes. No Brasil a figura de Papai Noel, em Portugal o Pai Natal e na Itália a bruxa Befana, todos esses personagens do natal presenteiam os bonzinhos e punem os maus comportados.

Na noite de natal a gestão municipal, não foi bem avaliada por essas figuras natalinas, pois ao invés de receber um presente, recebeu uma reprimenda. Uma enorme cesta de abacaxis entregues no Palácio Municipal no dia 24 de dezembro, na mesma hora em que os vereadores tinham suas prisões preventivas relaxadas. E todos eles esperando para serem descascados ao longo de 2014. O primeiro abacaxi a ser descascado pelo executivo é ganhar o apoio maciço da população nessa guerra de comunicação, impor a sua versão. É convencer o grosso da população caruaruense que a deflagração da investigação não foi uma arapuca armada para se livrar da oposição ou dos rebeldes, mas sim uma simples operação policial.

Embora a prisão dos vereadores tenha chocado a sociedade e despertado a cobrança por punições, para os que estejam realmente envolvidos no esquema criminoso, não houve o alinhamento automático com o executivo municipal. A percepção de que a Gestão é uma vítima totalmente inocente e que os vereadores são completamente culpados, devendo assim ser afastados da vida pública.
Como as investigações correm em segredo de justiça, as transcrições das conversas telefônicas comprometedoras não foram divulgadas, o que poderiam fazer a balança da opinião pública virar em prol do executivo. Como consequência do silêncio, do porquê das prisões, a cidade vem sendo tomada por inúmeras teorias conspiratórias, as mais absurdas possíveis.

O segundo abacaxi foi na realidade um bumerangue que voltou pra Prefeitura, se os vereadores foram abatidos em pleno voo, a bala ricocheteou e atingiu um dos principais projetos da gestão, o do BRT. A operação foi deflagrada porque as escutas telefônicas, segundo a Polícia Civil, comprovaram que os edis retardaram a aprovação do BRT ao condicionarem a votação ao pagamento de propina. Logo a aprovação do empréstimo foi viciada, sendo assim anulada pelo Judiciário, que exigiu uma nova votação da matéria para que o empréstimo saia e as obras comecem.

Se os vereadores reassumirem os seus mandatos, antes dessa nova votação com os suplentes, Caruaru poderá dar adeus ao BRT. Já que aos votos da oposição se juntarão os quatro da situação “sensibilizados” com a temporada na prisão, que atribuem a um golpe da Prefeitura, votando assim contra o projeto. Assim o BRT, que seria a vitrine e a grande marca da gestão, corre o sério risco de ir por água abaixo.

A chance da prefeitura é tentar manter a votação original, porém será muito estranho. Afinal a prefeitura apoiou as investigações e a operação, se ela tentar cassar a liminar, passará a impressão que tudo não passou de um grande equívoco, o que facilitará a defesa dos edis. Pois se a votação foi limpa, não houve corrupção, logo os vereadores não deveriam ter sido presos, se a anular pode não conseguir aprovar. Temos o então famoso: se correr o bicho pega e se ficar o bicho come.

O terceiro abacaxi é a reestruturação da sua articulação política, infelizmente sabemos que no Brasil nossos acordos políticos se baseiam no principio franciscano: “É dando que se recebe.” Sem ele não há montagem de bases de apoio em nenhum nível de governo. Ora como ocorrerão as futuras negociações por apoio, se a regra áurea das composições políticas, o segredo e a confiança foram quebrados? Será que os vereadores conversarão abertamente com os articuladores políticos da Prefeitura? Sem o receio que os seus pleitos sejam gravados e usados a posteriori contra eles? Conseguirá manter a sua base coesa e fiel pelos próximos três anos?

O quarto abacaxi, os desdobramentos das investigações, ninguém sabe o que os vereadores, tanto da base quanto da oposição, revelarão dos bastidores da política em Caruaru. É bom lembrar que o escândalo do mensalão começou com uma propina de apenas R$ 3000,00, mas arrastou o Governo Lula as portas do impeachment e resultou na prisão de figuras de proa do governo e da iniciativa privada. Se for revelado algum fato negativo que possa ser aprofundado com as investigações, num ano eleitoral, poderá respigar na Prefeitura e prejudicar o seu grupo político no pleito que se aproxima.
São por essas e outras que suspeitamos que o Prefeito não se comportou bem ao longo de 2013, talvez consequência da sua birra com os professores municipais, afinal ninguém recebe um presente desses a toa.

*Mário Benning é analista político e professor


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro