7 de julho de 2013 às 07h55min - Por Mário Flávio

Vendo essas manifestações espalhadas por todo Brasil percebo no ar um rompimento do povo com os políticos. Parte deste clima de “divórcio” vem do mostro chamado corrupção. Casos históricos no país não podem ser esquecidos. Em números:

140 milhões em 2006 no caso Sanguessuga;

55 milhões em 2005 no Mensalão;

18 milhões em 1998 e 2008 em São Paulo na Máfia dos Fiscais;

610 milhões em 2007 no Narvalha na Carne;

800 milhões de 1989 a 1982 no “bilhete premiado” (lembra dos tais anões?);

923 milhões de 1992 a 1999 no caso TRT de São Paulo;

1,8 bilhão em 1999 caso Banco Marka (Salvatore Cacciola);

2,4 bilhões entre 1990 e 2004 na “Máfia dos Vampiros da Saúde”;

42 bilhões entre 1996 e 2000 no caso Banestado – Paraná;

241 milhões caso da máfia Sudam;

No final da década de 90 a “Máfia dos Fiscais” em São Paulo, voltando 10 anos depois com a Operação Rapa;

E por ai se vai… Como nosso país consegue ainda avançar em questões sociais e não quebrar definitivamente mesmo havendo uma sangria tão grande nos recursos que deveriam chegar onde tem que chegar?

A proposta inicial é mudar o sistema político, mas a sociedade? Se continuar sem clareza no caminho a seguir, no que quer de fato, vai acabar sendo usada por outros interesses que estão em jogo.

Che via o novo homem como “produto não acabado”, e dizia que “só é possível avançar na revolução se junto avançarmos na formação do homem novo”. E isso passou e continua a passar pela educação. É um processo mais lento, porém melhor. Che entendia que “os melhores da sociedade é que devem ser dirigentes partidários”, assim teríamos líderes com mais riqueza interior e mais responsabilidade com sua tarefa de fazer o melhor pela nação, e não acumulando bilhões e trilhões em fortuna para benefício próprio.

A medida que se aproxima o período eleitoral, pois 2014 está chegando, é preciso ter cuidado no chamamento dessas manifestações, pois SEMPRE de início parece que está tudo certo, as palavras de ordem, a pauta inicial, mas é necessário observar a condução disso e se há coerência no processo.

Particularmente continuo não concordando com a ausência de símbolos e, vejo até que é impossível não usá-los, a não ser que haja resistência ou orientação para permitir esse e aquele não, pois para quem conhece os que estão são tão partidários e politizados quanto os que não podem estar.

No meu caso, permaneço há quase dois anos sem partido, ainda assim, não creio que o extermínio de partidos ou de políticos de mandato seja a solução. Penso que a “reforma” pode vir da mudança de hábitos primeiro da sociedade, mais politizada, mais consciente, e essa consciência formada para práticas mais humanas e solidárias, pois a partir daí, as instâncias de poder seriam mais influenciadas com esse “novo cidadão”, filiado em seu partido e eleito democraticamente para aquele mandato, que seria num melhor nível.

Cidadãos assim, mais sérios e comprometidos, de vida comprovadamente limpa, teriam condição de propor e criar leis mais justas, e executá-las. Se não, estaremos desconstruindo todo um processo histórico de lutas e conquistas. É necessário reconhecer onde teve avanço e onde precisa ter, e não querer desfazer de tudo, isso pode dar margem a outra intenção que talvez esteja obscura no momento, e quando enxergarmos será tarde demais.

Fernando Pessoa aborda isso em ‘Idéias Políticas’, separei alguns trechos, por questão de espaço:

“Nisto de manifestações populares, o mais difícil é interpretá-las. Em geral, quem a elas assiste ou sabe delas ingenuamente as interpreta pelos factos como se deram. Ora, nada se pode interpretar pelos factos como se deram. Nada é como se dá. Temos que alterar os factos, tais como se deram, para poder perceber o que realmente se deu. É costume dizer-se que contra factos não há argumentos. Ora só contra factos é que há argumentos. Os argumentos são, quase sempre, mais verdadeiros do que os factos. A lógica é o nosso critério de verdade, e é nos argumentos, e não nos factos, que pode haver lógica.”

PT CARUARU

Assim como no resto do Brasil, sempre tem militante ou dirigente buscando superar a crise com os partidos, e o caminho é mesmo sempre rever onde esteja errando, com humildade, confessá-los e assumir nova postura. O problema é quem vai estar disposto a agir assim? Quem o fizer, ganhará crédito do povo e de filiados. Há de ser o futuro sem desconsiderar o passado, e conseguir o improvável, como eu já comentei antes “unir as cinco pontas da estrela”.

A COR DA FOME

O risco de morte por desnutrição é 90% maior entre crianças negras do que entre brancas. Entre os adultos, as chances de morrer por tuberculose é 70% maior na população negra. E o número de consulta no pré-natal é quase 50% menor entre as gestantes pretas ou pardas. Os dados são do Núcleo de Estudos da População (Nepo), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que há 25 anos subsidia a implementação de programas e políticas públicas para reverter uma realidade em que nascimentos prematuros, mortalidade infantil, adulta e materna, entre outros agravos, apresentam altas disparidades quando relacionados à raça e cor.

FÓRUM DOS MOVIMENTOS SOCIAIS

Num primeiro momento é a melhor notícia que eu tenho sobre os resultados mais abrangentes dos protestos. Isso pode desembocar em ações concretas e contínuas exatamente daqueles que sempre lutaram por isso. Mas é necessário começar fazendo justiça no sentido de reconhecer que em linhas gerais, os atores são os mesmos, são variados, de cores diferentes e símbolos próprios, que validam o fórum exatamente por terem esse espaço para convivência de diferentes em torno de ideais iguais. A partir do memento que começar a fazer acepção, tramas escondidas e obscuras, vai repetindo o mesmo erro daquilo que combate. Mas pode ser diferente. Assim estou na torcida.

O DIA DO MOVIMENTO É HOJE!

Num dia como hoje, 7 de julho, surgia o semanário Movimento, lançado por uma cooperativa de jornalistas e dirigido por Raimundo Pereira. Circulando até 1981, sofrendo forte censura até 1978. Assumiu as lutas democráticas, antiimperialistas e populares, a oposição intransigente à ditadura, o debate de temas como a dívida externa e a Constituinte.

PARA REFLEXÃO

“Quem dera que os povos vissem a tempo, quanto terão de sacrificar da sua liberdade para escapar à luta de todos contra todos! A força da consciência e do espírito internacional demonstrou ser demasiado fraca. Apresenta-se agora superficialmente enfraquecida para consentir a formação de pactos com os mais perigosos inimigos da civilização. Existe, assim, uma espécie de compromisso, criminoso para a Humanidade, embora o considerem como sabedoria política. Não podemos desesperar dos homens, pois nós próprios somos homens. (Albert Einstein, in ‘Como Vejo o Mundo’)

*Paulo Nailson é dirigente político com atuação em movimentos sociais, Cursa Serviço Social. Membro da Articulação Agreste do Fórum de Reforma Urbana (FERU-PE) e Articulador Social do MTST. Edita a publicação cristã Presentia. Foi dirigente no PT municipal por mais de 10 anos.

 


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro