8 de agosto de 2013 às 08h25min - Por Mário Flávio

Sebastião Nery no seu livro Folclore Político relatou um fato bem interessante, ocorrido na Bahia e que podemos literalmente aplicar a Caruaru no atual momento político: “Houve reunião da Faculdade de Direito da Bahia, anos atrás, para os professores catedráticos indicarem seus professores assistentes. Luis Viana Filho indicou Luis Viana Neto. Albérico Fraga indicou Albérico Fraga Filho. Um terceiro também indicou. Na hora de o professor Lafaiete Pondé, nosso mestre de Direito Administrativo, indicar seu assistente, ele não teve dúvidas: ‘Indico o Pondezinho, meu filho’.

O diretor da Faculdade não entendeu: ‘Professor Lafaiete, o senhor está falando sério ou brincando? Todos aqui sabemos que seu filho é médico e não bacharel em Direito. Não pode ser professor numa Faculdade de Direito’. “Ah, me desculpem, pensei que bastava ser filho’. A reunião acabou.” O que esse pequeno relato tem a ver com a nossa realidade?

É público e notório que estamos vivenciando na cidade uma sucessão geracional, as lideranças que monopolizaram o poder político em Caruaru, dão evidentes sinais de fadiga de material. Apesar de todos eles terem marcado a política local, contribuindo de alguma forma com a construção da Caruaru moderna. Todos eles estão passando por um processo muito comum na política, o desgaste, o cansaço do eleitor e a dificuldade em criar pontos de conexão com o eleitorado, principalmente os mais jovens.

Independente dos méritos de suas gestões, fica cada vez mais evidente o descompasso entre o que eleitores querem e o que os políticos veteranos representam. Essa desconexão entre o povo e os governantes pode ser exemplificada ao olharmos a trajetória de vários políticos, que tiveram grandes gestões, mas que não conseguiram retornar ao poder posteriormente ou ter o mesmo sucesso da sua primeira passagem pelo poder. Aconteceu com Cid Sampaio, Arraes, Getúlio Vargas e recentemente Jarbas Vasconcelos.

O eleitor caruaruense cansou dos mesmos três rostos se revezando periodicamente no poder: Queiroz, Lyra e Gel, pois apenas esses três administraram Caruaru nos últimos 30 anos. Isso foi percebido através das pesquisas na última eleição municipal, o desejo da grande maioria da população era pela renovação da política na cidade, pelo novo. Esse anseio latente é o que explica a eleição atípica que vivenciamos no ano passado, com seus altos e baixos e a indefinição do eleitor até praticamente as vésperas do pleito.

Entretanto apesar desse clamor por novos rostos, estamos realizando uma renovação sui generis, pois os três grupos políticos, vem tentando enquadrar a realidade local as suas conveniências políticas. Se a população almeja pela renovação, por novos atores, esses papéis serão desempenhados por seus familiares: filhos e companheiros. O novo, nesse caso, será apenas no ineditismo de muitos deles em disputar uma eleição majoritária ou proporcional.

Se o eleitor local irá aceitar esse arranjo, não sabemos, pois aqui em Caruaru, assim como em boa parte do Brasil, votamos ainda nas pessoas e não nos partidos ou em projetos ideológicos. A política é feita, ainda, através dos sobrenomes ostentados pelos candidatos. O portador do sobrenome “certo” tem legitimado o direito de participar da vida pública, confirmando assim verdadeiras dinastias políticas que unem o poder político ao financeiro e monopolizam a política por todo o território nacional.

Com isso não queremos dizer que os familiares dessa lideranças não podem participar da política local, afinal os mesmos são cidadãos com plenos direitos políticos, inclusive o de votarem e serem votados. Acompanham seus pais há anos, participando ativamente de suas campanhas e das negociações políticas, é natural que tomem gosto pela politica. Porém os mesmos não podem exibir apenas como qualificação, o sobrenome ou a genética, pois a história mundial e nacional está repleta de casos de filhos de lideranças políticas que não conseguiram sair das sombras de seus pais.

Não emplacaram na hora do voo solo e nunca se livraram do rótulo de “filho de”. O eleitorado de Caruaru está começando a mudar, mais participativo, mais atuante, apesar do fisiologismo e o clientelismo ainda fazerem parte da nossa prática política, os mesmos vão tendo cada vez menos espaço para decidir uma eleição. Junte-se a isso a maior escolarização da população, a proliferação das redes sociais e o surgimento de lideranças emergentes outsiders, tanto no espectro político da esquerda como da direita caruaruense.

Desvinculados das famílias tradicionais da cidade, e que estão fazendo política e dialogando com diversos segmentos sociais, procurando ocupar espaços. Ameaçando assim romper com a bipolaridade política da cidade, oferecendo ao eleitor um leque de opções maior, outras cores além do vermelho e do amarelo. A população almeja por um governante, que independente da sua linhagem sanguínea, realmente apresente soluções para os problemas sociais graves que se acumulam em nossa cidade.

Somos a 185º cidade mais rica do Brasil, mas em qualidade de vida somos a 2503º, demonstrando de maneira inequívoca o abismo que temos que transpor. Por isso urge que os que almejam participar da política caruaruense, exponham claramente o que pensam sobre a realidade local, os principais desafios a serem superados, as suas concepções de governo e os seus compromissos com o social. Afinal para ser político em Caruaru, em breve, apenas ser filho não será o bastante.

*Mário Benning é analista político e professor*


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro