21 de fevereiro de 2014 às 08h25min - Por Mário Flávio

Estamos em uma sociedade onde há uma completa distorção de valores. Para algumas pessoas a vida não tem mais valor intríseco. O valor da vida vai depender da ideologia política individual. Explico. Você com certeza já ouviu condenações contra a ditadura militar que se iniciou em 1964 no Brasil. O regime militar perseguiu, torturou e matou bastante gente, além de ter, obviamente, acabado com a democracia.

Muitas pessoas condenam de forma correta esse período da história brasileira como um retrocesso político. Todavia, para alguns, esse não foi o pior defeito da ditadura de 64, tinha outra coisa mais podre ainda: o regime era de direita. Era conservador e reacionário. Ou seja, os assassinatos são condenáveis porque o regime era de direita, e não pelo assassinato em si. A Venezuela nos últimos dias tem passado por revoltas populares que pedem a saída de Nicolás Maduro do poder. Maduro é o sucessor de Hugo Chávez. Qual foi a reação de Maduro em relação à revolta? Mandou matar e torturar.

Fechou um canal de TV que estava exibindo os protestos, acabando com o único meio de comunicação que “ousou” mostrar o que realmente estava acontecendo. Oficialmente cinco pessoas foram mortas. Oficialmente porque sem comunicação fica difícil contar os mortos. Muitos deles eram estudantes, poderia ser um filho ou irmão nosso que saiu na rua para mudar o país. Por que tanta revolta do povo? O governo de Chávez criou uma economia planificada que resultou em corporativismo corrupto e escassez de itens básicos. Lá falta papel higiênico e comida. O povo passa fome e só empresários ligados ao governo ganham benefícios. Segundo a Human Rights Watch, maior organização de direitos humanos do mundo, as forças de segurança do governo mataram 7.998 pessoas entre 2000 e 2009.

Apesar disso tudo, o PT lançou em seu site uma nota de apoio ao governo de Maduro. Não só o PT, mas muitas pessoas ligadas a movimentos de esquerda postam no Facebook, fazem vídeos e outras coisas enaltecendo o governo venezuelano. Alguma palavra sobre os mortos? Nada. São mais de oito mil assassinatos que são meros detalhes para essas pessoas. E aqui que vem a discussão principal do nosso texto: a vida tem valor intríseco ou ela só vale o que nossa ideologia permite? Tem alguma diferença entre Hitler, de direita, e Stálin, de esquerda? Ambos foram ditadores que mataram milhões de pessoas.

Nós precisamos nos posicionar a favor de um lado? Essas pessoas, ao se colocar ao lado de Maduro, estão justificando o assassinato de milhares de pessoas pela afinidade ideológica que possuem com o regime de lá. Quando damos uma olhada na esquerda europeia e americana não vemos isso: na maior parte do primeiro mundo eles já aprenderam que batalha mesmo só nas urnas e nos debates. Políticos de esquerda na Europa condenaram a violência de Maduro contra o povo, porque sabem que a vida é maior do que qualquer afinidade ideológica. Os que falam mal da ditadura militar de 1964 (ou qualquer outra), mas fazem defesa de Nicolás Maduro, responsável pela morte de milhares de venezuelanos, não dão o valor devido à vida humana.

*Thiago Gomes é Representante do CA de Economia da UFPE-CAA.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro