27 de outubro de 2012 às 08h00min - Por Mário Flávio

Boa parte dos problemas do sistema passa pela valorização do professor, sendo um profissional de nível superior, a sua remuneração é abaixo das demais categorias e até mesmo de profissões de ensino médio. Temos várias cidades e governos estaduais que não cumprem a lei do piso. Recentemente o MEC divulgou o Censo do Ensino Superior, vários cursos como engenharia e a área de saúde tiveram incremento de matrículas, as licenciaturas praticamente estáveis ou até mesmo fechando seus cursos.

Ninguém quer ser professor, porque sabe que irá ter que lutar com três turnos de expedientes para ter uma remuneração mediana, quando se fala que é professor a sensação é que vão nos dar uma esmola, a carreira perdeu o atrativo. Quem quer ser professor Segundo o MEC na sua grande maioria os piores alunos no ENEM, aqueles que não aprenderam nada em sua vida escolar e não vão saber ensinar nada nas salas.

Mas temos os vocacionados e dedicados, que são minoria, que infelizmente ao entrar nas redes de educação pública se desestimulam com o caos, o desrespeito, a indisciplina e o não reconhecimento do seu trabalho. Migram para o ensino superior ou continuam como bastiões de uma educação de qualidade apesar dos entraves, mas frustrados porque sabem que infelizmente seu trabalho é uma gota no oceano. A qualidade do nosso professorado está tão defasada que em inúmeros concursos sobram vagas, porque ninguém foi capaz de passar, e quem então irá dar aula nessa vaga? O mesmo que foi reprovado. Ora, como é que alguém que demonstrou que não dominou o básico da sua matéria vai assumir uma turma?

Entramos aí nos tortuosos caminhos do uso político da educação, onde diretores e professores se forem aliados dos vitoriosos assumiram um lugar na máquina educacional, independente da qualidade. A educação virou receptáculo de cabos eleitorais desempregados em todo o país. A cereja do bolo são as estatísticas, hoje é mais fácil encontrar um dinossauro em Caruaru do que reprovar um aluno, não falo daquelas reprovações arbitrarias onde um aluno era retido numa turma por ficar em uma única matéria e por poucos pontos, isso era um absurdo. Hoje mesmo que o aluno demonstre que não aprendeu nada, não dominou o básico de sua série ele será aprovado, pois senão as redes de ensino preocupadas com o IDEB, onde um aluno reprovado provoca a queda do resultado da escola, do município e o fim do bônus, irão assediar constranger e até violentamente alterar a nota, para o índice mascarar a realidade.

Numa escola rural uma cidade circunvizinha a Caruaru, como os alunos trabalham no campo há uma evasão enorme, e pela gestora ter preenchido corretamente o questionário do IDEB notificando esses alunos como desistentes o IDEB caiu, ela retocou o questionário por pressão da secretaria da cidade e o que era péssimo ficou na média, os alunos desistentes foram contados como transferidos, estatisticamente a educação nessa localidade melhorou. Se passar um pente fino nas estatísticas o buraco é bem maior… Temos que ter concursos que atraiam talentos, com remunerações justas, temos que expurgar das redes os incompetentes, e recuperar os desmotivados, têm que dar condições básicas de trabalho. E principalmente parar de tirar o foco da educação com modismos e pedagogismos, um bom pedagogo é indispensável numa escola, porém o que vemos é a elaboração de políticas pra inglês ver, inventam novas formas de avaliar e cadeiras como se a escola fosse a redentora da humanidade.

Temos problema de tolerância então vamos criar uma disciplina para isso, temos uma crise ambiental vamos colocar no currículo essa disciplina. Ora para mim é claro se o aluno tiver boas aulas de filosofia, sociologia, geografia, história e artes ele será um cidadão com plenos direitos e deveres, se ocorrer uma aprendizagem significativa teremos mudado o mundo e não remendando a grade para isso.
Quando escuto alguns pedagochatos falando sei que vão discutir sexo dos anjos, mas soluções concretas para o real problema da educação não saem, que é: o nosso aluno não aprende e isso não serão debatido. É por isso que infelizmente mesmo adorando a minha profissão, sei que a solução só irá aparecer quando o caos tiver instalado, as empresas reclamam da qualidade da mão de obra, faltam professores e o resultado não melhora. E o pior é que na rede particular o resultado não é muito diferente disso, em muitos casos se tem apenas a estrutura física superior, pois o resto é igual.Temos uma educação de faz de conta: o poder público faz de conta que oferece o serviço, o professor faz de conta que ensina e o aluno faz de conta que aprende.

*Mário Benning é analista político e professor


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro