26 de abril de 2012 às 08h50min - Por Mário Flávio

Em 1968, quando a ditadura militar expusera o seu lado mais sombrio, cruel, perverso e autoritário, um jovem cantor e compositor paraibano, Geraldo Vandré disputava o 3° festival internacional da canção com a música: Pra não dizer que falei das flores. Conhecida como Caminhando, acabou em segundo lugar e perdeu para Sabiá (Chico Buarque e Tem Jobim).A decisão dos jurados chocou a platéia  que explodiu em ira, raiva e choro, o constrangimento foi geral e a situação caminhava para o caos,  até  Vandré subir no palco de forma serena etranquila e dizer ao público delirante: “ gente, a vida não se resume a festivais”.

Em 2012 o mundo é outro, Vandré é outro e as músicas que lotam os estádios são outras. Mais o exemplo de Vandré naquele dia devia ser um constante exercício para os políticos e a população, que a vida democrática e o exercício pleno da democracia não se resumem às eleições.  As eleições deixaram de ser uma etapa de um processo, para ser a razão e essência do próprio processo.  A banalização da mediocridade e da insensatez desvirtuouos conceitos e fundamentos da democracia, o que sem dúvida engrandece os tiranos e suas elites e condena o resto da população à miséria, à exclusão e à ignorância.

Historicamente a democracia moderna é um regime que promoveu a desvinculação do homem das relações de dominação pessoal que marcaram o feudalismo. A fundação da cidade expressava a subversão da ordem feudal, na qual o camponês estava atrelado ao proprietário da terra  por laços de subordinação  pessoal. Por esse motivo, essa sociedade era caracterizada pela segregação entre os homens em estratos sociaishierarquizados.  É na cidade que o homem adquire a emancipação material e moral, bem como demonstrou Max Weber. A ordem social passa a ser associada à emergência dos direitos ligados, considerados naturais. Direito à liberdade, à propriedade, à segurança e direito deresistência á opressão.  A multiplicação das cidades e asformas de vida que elas formaram ensejaram à subversão da  ordem feudal contra as formas de opressão.

As palavras cidade e cidadão foram historicamente, ganhando o mesmo sentido. Podemos identificar três momentos dessa evolução.  Antes de tudo, na antiguidade clássica, cidadania tem a ver com a condição de Civita pela a qual os homens vivem emaglomerados urbanos, contraem relações fundadas em direitos e deveres mutuamente respeitados.Posteriormente, à condição de Civita somou-se à de pólis,ou seja, o direito dos moradores das cidades participarem nos negócios públicos. Já no século XIX, a condição de cidadania é expandida com a inclusão de direitos de proteção ao morador contra o arbítrio do Estado. No final do século XIX e no inicio do século XX, a condição de cidadania expressava também os direitos relacionados à proteção social, (desemprego, acidente de trabalho etc.) e,posteriormente,  estendido à própria condição de cidadão.

No século XXI perdemos a noção do legado quefoi construído pela história, os conceitos e fundamentos de moralidade e ética foram jogados para baixo do tapete, os espaços e ambientes públicos de exercício da cidadaniaderam lugar a aventureiros e oportunistas que se apropriam  dos bens e da coisa pública  para fins privado. O poder e sua reprodução têm finalidade em si mesmo.   Quando o jogo político chega à esfera da disputa entreindivíduos é a morte do Estado laico, do  Estado de direito  e da liberdade de expressão.

As eleições tornaram-se um jogo de vaidades,onde o egocentrismo, o narcisismo exacerbado e o culto àpersonalidade, tornaram-se rotina. Os projetos, idéias eprincípios dão lugar ao blefe, mentiras, conspirações, traições e lutas fratricidas. A demagogia insana e desprovida constrói messias provincianos, que de forma mesquinha e piegas, dão receitas e diagnósticos sobre um mundo e uma realidade que eles pouco entendem e muito menos o povo. As eleições tornaram-se o ópio do povo,pois lhes tiram do mundo real e lhes jogam no universohilário e fantasioso.

Neste andar da carruagem, temo que o País de Caruaru nas eleições de 2012,  se torne uma república do faz de conta ou o país da das maravilhas. Para tanto temos que inverter a lógica  da mediocridade  aprendemos  a distinguir a figura do bobo da corte do estadista, desconstruir os discursos e as idéias vazias, propostas mirabolantes, inconsistentes para entender a essência e não a aparência dos fatos. Introduzir o cidadão democraticamente no jogo político da eleição, seria a grande inovação dos últimos 50 anos na política do município. Resgatar a cidade significa resgatar o cidadão, criar políticas públicas para que todos se entendam,membros da Pólis, Civita e que o dialogo eleitoral não seja travado em gabinete entre vermes e ratos.

Vandré entendeu com sabedoria e modesta o jogo dos festivais, cabe aos nossos políticos possuir a mesma simplicidade, pois eles passam e Caruaru sobrevive sem eles. Caruaru é uma construção da historia, não é invenção e nem criação de ninguém. As flores, os jardins e as praças só têm significado e beleza, quando sentidas, admiradas e contempladas pelo o povo.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro