16 de dezembro de 2020 às 08h21min - Por Mário Flávio

O deputado Arthur Lira (PP-AL), líder do Centrão e candidato a presidente da Câmara, disse ao Poder360 que, se eleito, não será líder do Governo nem terá a “truculência política” que atribui neste momento a Rodrigo Maia (DEM-RJ), atual presidente da Casa.

A eleição para a principal cadeira da Câmara é em 1º de fevereiro de 2021. Por decisão do STF, Maia não pode se candidatar novamente. Mas o demista tenta montar um grupo que rivalize com Lira na disputa e fala em 3 possíveis nomes: Baleia Rossi (MDB-SP), Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) ou Marcos Pereira (Republicanos-SP).

“A gente também tem todo o lado assim, de muita truculência no seu final. De muita pauta exclusivista. Truculência política, regimental, no final da gestão do presidente [Maia]”, declarou Lira durante a entrevista ao dar exemplo de como não pretende atuar se for eleito. Disse que, se eleito, evitará esse tipo de atitude que hoje condena em Maia.

O deputado se aproximou do Palácio do Planalto em 2020. Falou que seu partido e ele são da base do governo de Jair Bolsonaro. Isso, porém, não tiraria sua independência em relação ao Planalto. “Eu não serei líder do Governo, serei um presidente da Câmara dos Deputados”.

Também afirmou que qualquer candidato ungido por Maia será governista:

“Para ser realmente contra o presidente Bolsonaro tem de ser do PT, do Psol ou do PC do B. Mesmo do PDT e do PSB alguns deputados votaram com o governo e estão cumprindo suspensão por isso. O resto, qualquer um outro, seja do MDB, do DEM, do PRB (Republicanos), todos são base do governo”.

Lira lembrou que quando Maia se elegeu pela 1ª vez, há cerca de 5 anos, foi com um empurrão do presidente da República à época, Michel Temer, “com apoio do Moreira Franco”, que era ministro. Ao se reeleger recentemente, Maia teve o “apoio do PSL quando o presidente Bolsonaro era do PSL [e] isso nunca foi problema”. 

“O Rodrigo sempre manteve uma posição de independência. Essas coisas que são soltas na imprensa para carimbar esse ou aquele não vão colar internamente porque os deputados se conhecem. E qualquer candidato que venha para essa disputa não será de fora da base do governo a não ser que a oposição lance candidato próprio”, declarou Lira.

Durante a entrevista, o deputado foi confrontado com o fato de que ele e Maia votaram a favor do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016. Como então poderiam agora tentar disputar apoio do PT e de outros partidos de esquerda que consideram ter havido um golpe quando Dilma perdeu o cargo de presidente?

Poder360 mostrou para Lira as gravações em vídeo dos votos dele (aqui) e de Maia (aqui) em 2016. Ao se pronunciar há 4 anos, o deputado do PP falou que votava a favor do impeachment porque o país estava parado e era necessária a volta do desenvolvimento. O demista começa elogiando Eduardo Cunha (presidente da Câmara à época, detido pela Lava Jato posteriormente e hoje em prisão domiciliar) e depois fala sobre como o PT “rasga a Constituição”.

Eu não teria dificuldade nenhuma de repetir um voto como esse hoje. Mesmo querendo apoio do PT. Prego conversa, harmonia, desenvolvimento para o país”, diz Lira. E completa: “Eu não sei se o Rodrigo hoje, mais à esquerda, teria como repetir o voto dele, sinceramente. Mostrou, não tenho dúvidas, um rancor de perseguição ao pai, que o PT rasgava a Constituição no Estado, que rasga a Constituição no Brasil. Não sei se ele repetiria o [voto] dele nas condições de hoje, o que mostra uma mudança de rumo quando é conveniente”.

O tom de Arthur Lira ao longo da entrevista ao Poder360 foi de ponderação. O deputado respondeu a vários assuntos controversos sempre afirmando que deseja, se vencer, governar a Câmara buscando consenso com os líderes partidários e só colocando em pauta no plenário o que a maioria decidir.

Ao falar sobre a possibilidade de pautar projetos que pedem a liberalização do aborto ou facilitar o porte de armas, disse que temas assim precisam vir das ruas e estarem maduros antes de serem colocados para o plenário da Câmara.

No caso voto impresso em eleições, um desejo do presidente Bolsonaro expresso mais de uma vez, Lira acredita que seja necessária cautela. Defende que eventualmente seja arquitetado um projeto piloto em um Estado pequeno ou cidade de médio porte –para acoplar uma impressora a cada urna eletrônica. Aí, a depender dos resultados, o tema poderia ir adiante ou não.

Na área econômica, demonstrou simpatia, com ressalvas, à criação de um imposto digital, como o proposto pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.

Lira pondera que são necessários mais estudos a respeito. É contra aumento de impostos em geral. Também disse ter recebido um estudo de um empresário de São Paulo propondo que empresas que já cumprem todas as suas obrigações fiscais possam abater do imposto devido o que tiverem de eventualmente pagar por causa da CPMF digital.

Outro temor do mercado para 2021 é sobre se o teto dos gastos será mantido. No que depender de Lira, a resposta é positiva, sim, será respeitado. Mas o deputado afirma que seria importante haver algum tipo de programa social que possa compensar o fim do auxílio emergencial pago durante a pandemia. Só que esse tipo de benefício precisaria caber dentro do limite imposto para as despesas do governo.

A recomendação do candidato a presidente da Câmara é que despesas do governo sejam remanejadas para que sejam encontrados recursos para a área social.

Se eleito, disse considerar necessário colocar em votação a autonomia do Banco Central, já aprovada pelo Senado. O projeto chegou à Câmara, mas não foi pautado por Rodrigo Maia. No Ministério da Economia atribui-se essa decisão de Maia à uma necessidade política: atrair votos de deputados de esquerda (que são contra o BC independente) para tentar derrotar Lira em fevereiro de 2021.

Lira lançou sua candidatura à presidência da Câmara na última semana, ao lado de representantes de partidos com 160 deputados. Nasceu em Maceió, é formado em direito e tem 51 anos. Está em seu 3º mandato na Câmara. Concedeu esta entrevista na 3ª feira (15.dez.2020), no estúdio do Poder360 em Brasília.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro