22 de junho de 2013 às 08h25min - Por Mário Flávio

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Em um dia que começou nublado, uma manifestação popular se prepara para sair às ruas de Caruaru, para reivindicar melhores serviços públicos e, como um sonho ingênuo que começa na maioria dos jovens: a busca por um país melhor. O manifesto “Não é só pelos centavos” se impulsionou na Capital do Agreste a partir de uma página no Facebook e até a manhã deste sábado (22), dia do protesto, já reunia 12.037 pessoas que confirmaram presença. Não é certo que todas essas pessoas vão, mas os que mobilizaram o evento desde meados de junho, acreditam na força de um ato pacífico para chamar a atenção dos políticos locais por melhores condições de serviços públicos.

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“Algumas pessoas se juntaram e achou que tava na hora de fazer algo e aí surgiu a ideia do grupo no Facebook e depois a mobilização foi tomando corpo. Eu, por exemplo, vi o pessoal querendo organizar esse ato e tentei ajudar, mostrando algumas pautas que precisam ser discutidas na cidade”, explicou o estudante de Sistemas da Informação e membro da UJR, Rik Daniel, um dos primeiros a confirmar presença e um dos administradores da página do evento. Eles especificam assim, referindo-se apenas a página na rede social, porque não querem dar líderes ao movimento.

“Nós somos pessoas, não entidade A ou B, ou grupo de estudantes, de professores, dos sindicatos, grupo de nada. Somos cidadão que querem melhoras para o governo. Uma vez que entramos como grupos específicos, começamos a separar o movimento, para atender causas particulares. Essa é uma representação da sociedade caruaruense. Na verdade, o que queremos é que os políticos atendam aos compromissos que eles mesmos nos prometeram quando votamos neles”, frisou outro dos que encabeçaram a mobilização na internet, o professor Ayslan Melo.

Na verdade, esse manifesto, assim como no restante do país, partiu da insatisfação com a qualidade do serviço de transporte público, especificamente como uma reação contrária ao reajuste de tarifas de ônibus, que em Caruaru foi projetado de R$ 1,80 para R$ 2,10, em decisão do Conselho Municipal de Transporte (COMUT). Contudo, a prefeitura municipal vetou o aumento e preferiu convocar uma nova reunião. Dois fatores: a onda de protestos em nível nacional e a própria necessidade de se recalcular o valor, pois não havia levado em conta o recente decreto do governo federal que isentou as empresas de transporte coletivo dos impostos do PIS e COFINS. Ainda assim, em Caruaru, isso não era mais o motivo do protesto.

Os manifestantes escolheram as bandeiras principais a serem levantadas para Caruaru e planejam se orientar por essas causas, ainda que, enquanto público que os próprios organizadores julga que não possui líderes declarados, as possibilidades de reivindicações possam ir além do que eles imaginam. Ainda assim, eles cobram: construção imediata de Terminais de Integração interligando os bairros e pontos mais distantes da cidade; aplicação da Lei Federal existente que concede gratuidade no transporte coletivo aos maiores de 60 anos; livre acesso aos projetos públicos através da mídia; entrega das obras municipais atrasadas e conclusão do Hospital São Sebastião e respeito aos direitos dos professores, para garantir melhores condições de trabalho e, também, melhora da educação, imediatamente, em nosso município.

Contudo, isso demanda tempo e uma resposta prática do governo, além de vontade política, e para Ayslan, isso é compreensível, já que a ideia é que o movimento não se restrinja a um único ato. “A curto prazo esperamos que se faça algo, com certeza. Mas nosso foco é a longo prazo. Pois essa é apenas o primeiro passado. Vai haver outras mobilizações para garantir os tópicos principais que defendemos nos protestos, já que as pessoas que estão participando da mobilização se complementam”, reforçou.

Fora isso, há outras preocupações, mais imediatas, como o risco de violência. O movimento já havia comunicado Polícia Militar e Destra sobre o manifesto no meio da semana passada. Providências foram tomadas e uma das medidas de segurança tomadas se refere à circulação dos ônibus pelo Centro da cidade, que ficará interrompida a partir das 07h até o término do movimento. De acordo com a organização do manifesto a concentração será no inicio da rua Manoel de Freitas. Depois os participantes seguirão pelas ruas Frei Caneca, Capitão João Velho, Duque de Caxias; descerão pela travessa 13 de Maio e terminarão na rua 15 de Novembro. Esse percurso estará totalmente bloqueado para o trânsito de veículos e o tráfego será desviado por vias paralelas.

Isso não tira o risco de vândalos, por exemplo. Para o professor de História, Gustavo Silva, que também integra a manifestação, pode haver riscos de focos de baderna, mas acredita que qualquer confronto será mínimo. “No caso de Caruaru, há muito a ser protestado, vai além dos transportes. A grande maioria dos que estão se propondo a protestar está contra isso. Mas como vai muita gente, não se pode haver um controle total. Há pessoas de A a Z, do DEM ao PSOL. Há quem defenda a legalização da maconha, o aborto. Infelizmente, há uma minoria que vem para badernar e acreditam na violência como linguagem. Não podemos responder por todos, pois o movimento é aberto, mas esperamos que os choques de violência sejam mínimos”, ressaltou.

Ainda segundo Ayslan, são possíveis estratégias para evitar a violência. “Todo o percurso será acompanhado pelas autoridades, eles terão autonomia para tirar esses grupos que se envolverem em brigas. Mas nós pretendemos usar uma ideia vista na Argentina, que quando acontece alguma arruaça, nós vamos sentar e a polícia vai identificar quem está badernando e vai retirar essas pessoas do local”, completou.

Em outro aspecto, a mobilização põe em dúvida a estrutura dos partidos brasileiros. Para o analista político Mário Benning, isso é uma crise de representatividade. “Cada vez mais as minorias não conseguem ser representadas, principalmente quando há uma perda de ideologias. No Brasil, hoje os partidos tem horários eleitorais diferentes, mas cumprem agendas parecidas, o que contribui para transbordar o copo das insatisfações da população”, analisou. Especificamente em Caruaru, oficialmente os manifestantes não condenaram participação de militantes de partido, mas haviam decidido em consenso que todos iriam de branco, sem levantar bandeiras, o que chegou a levantar discussões polêmicas com partidários que se sentiram restringidos. Na verdade, assim como defendeu o Movimento do Passe Livre, em São Paulo, a luta pode ser apartidária, mas não antipartidária, já que a própria mobilização original, em SP, surgiu do grupo esquerdista, que decidiu não convocar novos protestos, pois já havia negociado com o governo e alcançado o objetivo principal: o reajuste tarifário.

Para os manifestantes caruaruenses, esse exemplo pode ser importante também: reforçar o foco principal do protesto e ir além da passeata, para negociar com o governo local e atingir reivindicações concretas, algo que vá além e justifique e vá o #Vemprarua e gritos de ordem.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro