27 de fevereiro de 2016 às 18h48min - Por Mário Flávio

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Do Diario

Por meio de sua página no Facebook, a vereadora do Recife Marília Arraes anunciou, na tarde deste sábado (27), sua desfliação do Partido Socialista Brasileiro (PSB). A carta de desfiliação, direcionada ao presidente do partido em Pernambuco, Sileno Guedes, foi protocolada na última sexta-feira (26) no Diretório Estadual. No documento, divulgado na íntegra, Marília faz uma série de críticas ao antigo partido, elencando alguns episódios.

Segundo a ex-socialista, criou-se uma “atomesfera para o controle à mão-de-ferro, tanto do próprio PSB quanto da política de Pernambuco em toda a sua estrutura”. Ela ainda acusou a cúpula do partido de “querer comandar desde simples decisões internas partidárias, que coubessem a escolhas democráticas e colegiadas, até o desenrolar de toda a cena e atores políticos do Estado”. Marília também afirmou que “atitudes bajulatórias, principalmente para com a família Campos e os que gravitam em torno dela, tornaram-se praxe entre os integrantes do PSB”.

No documento, Marília Arraes também afirmou ter sido vítima de ofensas e retaliações desde 2014, ano em que ela rompeu politicamente com a antiga legenda. Segundo ela, tais episódios tornaram “insuportável a minha permanência neste simulacro de Partido Socialista Brasileiro”. A vereadora criticou, ainda, as alianças feitas em 2014, especialmente com o PSDB. A aliança com os tucanos, na avaliação de Marília Arraes, foi “de encontro a tudo o que o PSB pregou, batendo de frente com aliados históricos e beneficiando toda uma curriola de direita que tudo fez para erradicar conquistas obtidas a muito custo”.

De acordo com a mensagem publicada no Facebook, o destino da vereadora e a data de filiação ao novo partido serão divulgados em breve. No entanto, após deixar o PSB, a legisladora deverá se filiar ao PT. Na última terça-feira (23), o ex-prefeito do Recife, João Paulo, divulgou em seu Twitter que a cerimônia de filiação ocorrerá na próxima quinta-feira (03), às 18h30, na Câmara dos Vereadores do Recife. O presidente Sileno Guedes não foi localizado pelo Diario para comentar o caso.

Entrenda o caso
Prima do ex-governador Eduardo Campos, Marília Arraes rompeu com o PSB em 2014, em plena campanha eleitoral. Na ocasião, a então socialista anunciou que apoiaria o petebista Armando Monteiro, adversário do governador Paulo Câmara (PSB), para a disputa ao governo do estado. A vereadora argumentou que não concordava com algumas posturas políticas adotadas pelo partido.

Confira abaixo a íntegra da carta de desfiliação de Marília Arraes:

Ilmo. Sr.
SILENO GUEDES
Presidente Estadual do PSB

Prezado Senhor,

Como é do conhecimento de todos, possuo uma identidade histórica com o PSB e sempre defendi de forma aguerrida e corajosa os objetivos e os princípios do partido. Identifico-me integralmente com a luta socialista e faço dela o meu objetivo diário na política e na vida pessoal. Acredito na liberdade, na democracia, na participação popular, na socialização dos meios de produção estratégicos e fundamentais ao desenvolvimento do país, na criação de novas formas e sistemas de produção e na perspectiva de um desenvolvimento sustentável. Não admito qualquer forma de preconceito, de opressão, de marginalização de pessoas e luto para combater os antagonismos de classe e a exploração.

Firme nessa convicção, sempre contribui com o PSB no diálogo com a sociedade e nas disputas eleitorais. Desde muito cedo, acompanhei Dr. Miguel Arraes em sua atividade política, participando e aprendendo com o seu modo sério, democrático e socialista de se posicionar. Em 2008 e em 2012, fui eleita vereadora do Recife, em campanhas vitoriosas que contribuíram para o crescimento do partido e para a sua consolidação nos cenários municipal, estadual e nacional.

Em meio a este contexto de crescimento meteórico, foi-se criando uma espécie de atmosfera, por parte de um núcleo duro da legenda, para o controle à mão-de-ferro, tanto do próprio PSB quanto da política de Pernambuco em toda a sua estrutura, em busca da ocupação completa de todas as instâncias de poder existentes, nas esferas estadual e municipal: Executivo e Legislativos Municipais, Judiciário e Tribunais de Contas, utilizando-se dessas últimas instituições, inclusive, como “polícia política”. A cúpula dos que mandam no partido passou a querer comandar desde simples decisões internas partidárias, que coubessem a escolhas democráticas e colegiadas, até o desenrolar de toda a cena e atores políticos do Estado. Desta maneira, os militantes, foram alijados de qualquer participação na construção democrática, já que a nós cabia não só homologar todas as decisões que vinham “de cima”, mas também aplaudi-las de pé. Atitudes bajulatórias, principalmente para com a família Campos e os que gravitam em torno dela, tornaram-se praxe entre os integrantes do PSB.

Posso exemplificar e provar o que digo. Durante o ano de 2014, houve a tentativa descabida de se impor uma verdadeira intervenção na juventude do partido. Quando todos esperavam que houvesse uma disputa e diálogo saudáveis dentro do segmento – que, diga-se de passagem, é a base da formação de quadros partidários – de repente, somos surpreendidos com a notícia de que a JSB/PE seria comandada por João Campos, filho de Eduardo Campos, que dias antes, em visita à sede do PSB, havia singelamente conversado com os jovens das chapas postulantes ao congresso estadual do partido, dizendo que queria conhecer sobre o funcionamento da Juventude Socialista. Sem nenhuma militância, construção deste caminho, nem justificativa política. Aliás, para muitos, era algo plenamente justificável: “A ordem veio de cima”.

Partindo para a política macro, acompanhamos com muito pesar a formação das alianças celebradas pelo PSB para eleições de 2014. Como uma verdadeira reedição da retrógrada e extinta “União por Pernambuco”, numa atitude cheia de pragmatismo, contradição e com zero preocupação ideológica, o PSB-PE aliou-se a DEM, PSDB, PMDB e PPS, adversários históricos, não somente do ponto de vista eleitoral, mas principalmente em relação aos ideais e às lutas encampadas pelo PSB. Partidos reacionários, muitos que sempre representaram a violência, a ditadura e a opressão em nosso país. Tudo isso reflete uma mudança substancial do programa e dos objetivos basilares do PSB, partido nascido na luta pela democracia e pela liberdade.

Não posso esquecer de citar o episódio revoltante do inimaginável – até então – apoio dado ao PSDB de Aécio Neves no segundo turno das eleições presidenciais, indo de encontro a tudo o que o PSB pregou, batendo de frente com aliados históricos e beneficiando toda uma curriola de direita que tudo fez para erradicar conquistas obtidas a muito custo. Mesmo antes da morte do ex-governador Eduardo Campos e da escolha da ex-ministra Marina Silva como candidata (e seu discurso disfarçadamente liberal), ficou mais evidente ainda a guinada à direita que o antigo Partido Socialista Brasileiro deu, contrariando seus princípios, seu estatuto e, principalmente, sua história.

Também não posso me furtar de salientar as repetidas ofensas e retaliações de que fui vítima desde 2014. De darem meu nome a uma cadela no comitê do então candidato a governador Paulo Câmara às criminosas pichações com ofensas à minha honra pelos muros do Recife, passando por tentativas ignóbeis de intimidação e cerceamento de minha voz e de meu mandato, por meio de manobras regimentais que me alijaram da titularidade de qualquer comissão na Casa de José Mariano, chegando até ao absurdo de cabos eleitorais travestidos de candidatos a conselheiro tutelar, incentivados pela cúpula do partido, me xingarem dentro da própria Câmara de Vereadores, num desrespeito flagrante às instituições e à democracia. Sempre fui uma militante disciplinada e, se minha discordância se tornou pública, foi porque as instâncias internas do partido jamais a levaram em consideração. Dia após dia, foi-se tornando insustentável a minha permanência neste simulacro de Partido Socialista Brasileiro.

Voltando às eleições de 2012 e 2014, a legitimidade política da escolha dos candidatos na última eleição foi democraticamente questionável. Não somente o candidato e atual governador, mas a maioria dos candidatos proporcionais ditos “prioritários” dentro do partido, não consolidaram sua candidatura por meio de militância política e reconhecimento de atuação. Como é de conhecimento geral, a indicação dos candidatos ocorreu de maneira impositiva, através da determinação de dirigentes que trataram os órgãos deliberativos do partido como simples homologadores de decisões já tomadas. O que avalio ser muito grave foi a naturalidade com que a imprensa e grande parte da sociedade encarou o desenrolar da unção dos escolhidos. Mais ainda: aqueles que internamente discordam não são ouvidos e, pior, são taxados de subversivos e sofrem uma perseguição digna de uma ditadura.

É essencial, entretanto, que eu faça um mea culpa – ou melhor, meu e de quadros históricos do PSB, mesmo os que não conseguem se pronunciar e romper com o atual sistema – acompanhado de uma profunda reflexão. Fomos excessivamente tolerantes com diversas, pequenas e isoladas, atitudes do comando partidário, em especial a partir do ano de 2011. Tolerância e complacência estas que, certamente, desaguaram na situação atual de extrema incoerência em que o Partido Socialista Brasileiro se encontra. De alguns anos pra cá, o pragmatismo descaradamente superou a ideologia e muitos de nós (entre os quais me incluo até o ano de 2014) subestimamos tais fatos ou calamos por disciplina partidária e, mais ainda, tínhamos esperança de que tratavam-se apenas de meios para se chegar aos objetivos principais, quais sejam, fazer que a máquina pública efetivamente funcionasse para o combate à desigualdade social.

Ao contrário do esperado, a condução política dos que hoje mandam no partido foi equivocada, ou, porque não dizer, de má-fé. Perdeu-se o controle das concessões ideológicas e prioridades pragmáticas. Quando se trata das diretrizes de gestão, aqui em Pernambuco, onde o Partido Socialista Brasileiro comanda o Estado e a capital, o que temos são governos cada vez mais à direita. Os governos do PSB – principalmente a Prefeitura do Recife, já que do Governo do Estado pouco se escuta falar – têm um claro desprezo pela população mais carente, típico das forças mais retrógradas e reacionárias que conhecemos. Para a classe média, disparam, sem o mínimo pudor, falácias que desrespeitam a inteligência dos cidadãos.

Estou certa de que muitos socialistas concordam plenamente tudo o que expus e, por receio da perseguição que podem sofrer por parte dos que hoje dominam Pernambuco, calam-se, aplaudindo, todavia, por debaixo da mesa.

De tal modo, venho comunicar, através desta, a minha desfiliação do Partido Socialista Brasileiro.

Atenciosamente,

MARILIA ARRAES
Vereadora do Recife


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro