21 de abril de 2013 às 11h30min - Por Mário Flávio

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Entrevista publicada na Folha de Pernambuco

Quarenta e nove anos depois do golpe militar (1964) e as lembranças se mantêm vivas para o ex-líder do Partido Comunista Brasileiro (PCB) Manuel Messias da Silva. Caruaruense, economista, cientista político e professor, ele visitou a Folha de Pernambuco para apresentar o livro recém-publicado “Marcas da Memória: História oral da anistia no Brasil” que traz, em algumas páginas, depoimentos seus sobre os anos de chumbo. À Folha, ele confidenciou, pela primeira vez, um momento inusitado quando chegou a ser, sem saber, uma espécie de consultor político do ministro da Guerra, general Sílvio Frota, que foi lhe visitar na prisão para pedir informações sobre os ex-presidentes que havia conhecido. Na avaliação do ex-líder comunista, a esquerda progrediu.

VIDA PÚBLICA – Nos anos 50, eu era da juventude e entrei no PCB em Caruaru. A partir daí, por conta da revolução, cheguei a ser secretário político do partido (1964) e líder em Caruaru. O partido era clandestino. A nossa luta política era legalizar o partido e criar os sindicatos dos trabalhadores, que não existiam. Nós participamos das eleições de João Lyra Filho em Caruaru. Fui candidato a vereador, 1º suplente e fui cassado pela câmara por ordem do Exército. Após o exílio, voltei e me organizei. Entrei no MDB, hoje PMDB. Trabalhei na Assembleia Legislativa um tempo, como assessor de Gilvan Caldas. Fui subchefe do gabinete da oposição na Assembleia e cheguei a ser candidato a deputado estadual junto com Fernando Lyra e Miguel Arraes. Fui votado, mas não obtive uma grande votação. Com isso, comecei a trabalhar como economista e, através de Sílvio Maranhão e Roberto Fernando, fui convidado a ser professor na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), após passar por uma sabatina. Passei 18 anos sendo professor de Economia, Administração e Ciência Política. Hoje, trabalho na Vice-Governadoria.

GOLPE MILITAR – No dia do golpe eu estava aqui, no Palácio do Governo. Eu estive com Arraes até as últimas horas. Voltei de lá do Palácio do Governo e fui para Caruaru. Acertei com Arraes que a gente tinha que resistir ao golpe militar. Junto com os partidos socialistas e comunistas, já éramos uma frente. Já éramos a maioria, os democratas decididos a fazer a reforma. Em Caruaru, nos organizamos e ficamos em contato com o Palácio do Governo e com o Rio de Janeiro. Quando chegou a madrugada, estávamos organizados militarmente. Toda a área foi tomada pela polícia, inclusive, a estação ferroviária, onde tinha o telex. Fui até lá com o tenente Ferraz, que era ligado ao Partido Socialista. Tivemos informações que João Goulart tinha saído por pressão. Não quis reagir. Achou que não era correto. Tivemos em contato com o pessoal do partido (Jango e o brigadeiro Teixeira, que pediu a Jango, ordens para bombardear a cabeça da tropa que era comandada por Mourão Filho). O presidente negou-se e disse que era ruim, pois os americanos já estavam em águas internacionais e não tinha condições de resistir. Diante desse fato, reunimos as pessoas e desarmamos nossa resistência em Caruaru.

EXÍLIO – Fui preso a primeira vez em Caruaru, no movimento de greve. Mas logo fui solto. Vim para o Recife, onde fui preso no dia 3 de maio de 1964, um mês depois do golpe. Fui levado para a Secretaria de Segurança e, dois dias depois, fui sequestrado. Desapareci sem nenhuma documentação e fui levado para o comissariado de Água Fria onde fiquei com água até o nível da bacia sanitária e com as paredes com piche fresco. Fui solto em 68/69. Aí, os militares começaram a querer me prender de novo, me escondi e depois fui para o Rio de Janeiro. Lá, entrei em contato com o partido e nós continuamos o trabalho político. Voltei a estudar Economia. Logo depois fui preso. Após a minha segunda prisão, fui para o Uruguai. Avisaram para a minha família que eu deveria sair do País ou morrer. Então, atendi o pedido da minha família, peguei um ônibus e fui com a minha companheira para o Uruguai. Cheguei ao Uruguai e pouco tempo depois houve o golpe. Segui para a Argentina onde houve outro golpe. Fui para o Chile, onde teve novo golpe (1971/1972). No Chile, houve o golpe e eu entrei na embaixada do Canadá com o apoio dos padres da missão estrangeira e terminei exilado para o Canadá. Do Canadá, fui para a Argélia, onde convivi com Arraes. Aí, houve a queda de Salazar, durante a revolução portuguesa, então fui para Portugal onde terminei meu curso de Economia. Depois, passei um tempo em Moscou, depois fui para a França onde fiz um curso de pós-graduação na Sorbone. Foi um período difícil. O exílio corrói por dentro. Eu não tinha documento, só tinha um passaporte argelino, que consegui através de Arraes, e um passaporte português dado pelo governo Português de Mário Soares.

REGRESSO – Antes da anistia voltei ao Brasil. O meu passaporte brasileiro já estava vencido e eu não conseguia mais visto na França. Precisava fazer as últimas provas do meu curso lá. Então, cheguei à conclusão que eu precisava vir ao Brasil. Conversei com Arraes e Brizola sobre a minha vinda e eles me ajudaram financeiramente. Sílvio Lins foi outro cara que me ajudou e a anistia internacional me deu a passagem para eu vir ao Brasil. Quando cheguei aqui fui recebido no aeroporto por Fernando Lyra, Jarbas Vasconcelos, Maurílio Ferreira Lima, Alceu Valença e o meu irmão Carlos Fernando. Era dezembro de 78 ou 79. Quando eu cheguei aqui à situação já era outra. A anistia já estava encaminhada. Já se discutia a redemocratização. Fui ao Rio de Janeiro. A Polícia Federal me parou e mandou eu ir depor no dia seguinte. Dei entrada no meu passaporte, consegui passagem com Fernando Lyra, Marcos Freire e Jarbas para voltar a França e terminar meu curso. Depois que terminei, voltei de vez, pois já estava em vigor a Lei de Anistia.

DEMOCRACIA – A democracia no mundo inteiro teorizada por Sólon, teórico grego, e implantada por Clístenes, que dá um golpe militar com apoio da população e institui a primeira fase da democracia no mundo, evolui. A democracia é um sistema que evolui, é um processo histórico. Cada dia se amplia. Está agora o mundo Árabe começando lentamente com a democracia, vai ampliar. A democracia é um processo evolutivo dentro da história de cada país. Nós temos muito que evoluir como os norte-americanos têm. A democracia avançou mais teoricamente na social-democracia. Mas, estudando o trabalho de Noberto Bobbio, a gente vê que a democracia é um sistema em desenvolvimento, é um sistema dialético, não morre, não estaciona. A democracia tem que atingir as empresas, os sindicatos e as universidades.

ANISTIA – Tem que ser uma anistia a ter um mínimo de punição aos torturadores. Todos os países que passaram por uma anistia muito ampla, porque era o momento histórico, modificaram isso. Os torturadores na Argentina, no Uruguai e na África do Sul, estão na cadeia. Então, não é possível fazer uma anistia para perdoar os torturadores. É contra a lei, Constituição e é contra a instituição da ONU. A lei internacional manda punir os torturadores. A lei brasileira tem que ser reformada, porque fere capítulos da própria lei brasileira. Não pode dar perdão a quem é torturador, quem é assassino.

COMISSÃO DA VERDADE – Sou a favor do trabalho da comissão. Acho o trabalho muito importante, porque é um levantamento que precisa mostrar às novas gerações. O Brasil é um País complicado, infelizmente. Ninguém está a salvo de uma ditadura. Então, é preciso mostrar a verdade. A versão dos militares é de que os comunistas queriam tomar o poder, o partido comunista era ilegal, pequeno e não tinha nem condições disso. Houve algumas pessoas individuais que tentavam a ditadura armados. Mas não que fosse para instaurar o comunismo, socialismo.

ESQUERDA – A esquerda de hoje é a esquerda que nós defendíamos em 1964. Uma esquerda democrática, de centro, que defende o desenvolvimento e a inserção social. A esquerda que eu defendi, progrediu. Eu me considero um vencedor, pois vencemos a ditadura e as teses de ultra-esquerda. Tudo isso, hoje em dia, disputa-se eleição democrática. Disputa-se eleição para implementar um desenvolvimento que gere trabalho, emprego, riqueza e distribuição de renda. Da esquerda sobrou as políticas públicas que até o PCdoB, que foi por último quem aderiu a esse sistema, entrou. Tá aí, o PCdoB tem prefeituras, tem dirigentes, ministro que é a luta democrática, sem ranço contra o capitalismo já que nós não temos nenhuma fórmula de substituir o modo de produção capitalista. Nós temos que lutar, trabalhar e viver dentro do capitalismo. Lutando para ter a justiça social, igualdade social e de direitos e responsabilidade. Monitorar todas as empresas do sistema capitalista, mas sem mutilar o capitalismo. Não existe outra luta.

ELEIÇÕES 2014 – Eduardo tem uma visão política de desenvolvimento. O que ele está fazendo no Estado é completando a revolução industrial que ainda não havia terminado em Pernambuco. Ele tem uma visão neo-liberalizante do sistema econômico capitalista com responsabilidade social. A posição de Dilma Rousseff difere um pouco. Dilma dá mais ênfase à responsabilidade social, distribuição de renda, mas ela tem restrições à maneira neo-liberalizante de funcionamento do capitalismo. Ela tem um ranço ainda contra a economia de mercado e isso não pode mais ocorrer. Dilma é o próprio entrave, o gargalo que está diminuindo o investimento porque ela quer dirigir a economia através de intervenções do Estado. Quer dizer, essa intervenção está espantando os empresários que diminuíram o nível de investimento. Se a economia seguir com um crescimento negativo e a inflação subir, isso vai desarranjar a economia e vai atingir, vai começar a desempregar em fim de 2014. Eduardo diz que espera até 2014, porque ele acha que pode fazer mais e eu acredito que ele pode fazer mais. Dilma está se opondo, em parte, muito sorrateiramente, ao que Lula e Fernando Henrique fizeram. Então, se a gente tiver uma visão de conjunto quem está mais próximo do desenvolvimento provocado por Fernando Henrique e Lula é Eduardo e não Dilma. Ele tem um discurso mais coerente. Ele não tem nenhum ranço contra o capitalismo.

CONSULTORIA – O ministro da Guerra e general, Silvio Frota, chegou à cela que eu estava no Rio de Janeiro um dia, soltou a corneta de ministro. Como eu sou militar, conheci. Aí ele chegou, se apresentou na frente do xadrez. Eu perguntei “o que o senhor quer general?” e ele disse: “Eu quero conversar com você”. Chamou os guardas e mandou abrir o xadrez. “O senhor quer tomar alguma coisa? Beber água, um leite, uma cerveja, vamos almoçar e tal?”. Então, ele entrou, sentou-se, fechou a grade e começou a conversar sobre política, um grande interesse em saber como funcionava a presidência do governo cubano, da União Soviética, do governo francês, de Portugal. Lugares onde eu estive. Ele tinha muito interesse em estudar tudo isso. Ele ficou conversando sobre política o tempo inteiro, inclusive, demonstrando que não tinha nenhum ranço contra determinados presos políticos. Disse que no governo que fosse dele não teria certo tipo de perseguição a quem age pacificamente ou pense diferente. Interessante que depois se descobriu que ele queria ser presidente e o Geisel (o então presidente Ernesto Geisel) descobriu e acabou depondo-o do Ministério da Guerra. Fui uma espécie de consultor. Perguntou muito sobre Miguel Arraes, João Goulart, se eu tinha conversado com Jucelino (Kubitscheck). Foi uma espécie de consultoria na companhia de guarda. Foi uma conversa longa. Quando ele saiu, um oficial de dia me procurou para saber o que aconteceu, ninguém entendeu nada.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro