31 de março de 2014 às 11h55min - Por Mário Flávio

20140331-102809.jpg

Por Tâmara Pinheiro – Do livro: Relatos da ditadura em Caruaru – Histórias que os livros não contam

Severino Quirino nasceu na cidade de Bezerros, agreste central pernambucano, a 100 km da capital, Recife, em 26 de junho de 1930. Foi com desejo de mudar o mundo que Severino viveu boa parte de sua vida. Trabalhou na construção civil em Caruaru, como servente de pedreiro. Anteriormente, passou sua vida no campo, trabalhando desde criança na zona canavieira, junto aos seus pais. No início da década de 1960, alimentado pelo sonho que consumiu muitos, – e ainda é presente no campo dos desejos de milhares de nordestinos humildes -, migrou ao centro do Brasil, para trabalhar na construção do país, na cidade de Brasília. Retornou à Caruaru pouco tempo depois, sem acumular grandes riquezas.

Ficou conhecido na cultura popular como o Poeta da Fome, por causa de suas poesias feitas como autorretrato de sua própria vida e da observação de outras pessoas que também eram consumidas pela pobreza. Um talento que nasceu contrariando a formação de um jovem quase analfabeto, que tinha fome de justiça, de solidariedade, de ser escutado.
Suas aparência e origem humildes mascaravam uma enorme força para lutar pelas injustiças sociais que afligiam a sua família e a todos com quem convivia. “Eu estava sempre no meio de operários do Curtume São João1 e da Fábrica Caruá2. O que me serve de conforto e trago sempre na memória era a solidariedade vivida entre esses companheiros”, diz Severino.

Quem vê o senhor tranquilo, de idade avançada, com fala calma e palavras medidas, antes de serem faladas, não poderia ligá-lo a um passado de lutas, de busca por justiça. “Sou amante da liberdade”. É a liberdade, ideal que muitos buscam que Severino Quirino de Miranda sempre procurou e defendeu. Ao começar a narrar sobre sua experiência na convivência com a ditadura militar brasileira, seus olhos se enchem de lágrimas, seus pensamentos voam longe, resgatando momentos tristes da vida deste senhor de 81 anos. Ao descrever cada detalhe, percebe-se que sua relação com o golpe foi um tanto que tumultuada.

No ano de sua chegada ao mundo, o Brasil já vivia uma era conturbada, no governo do presidente Getúlio Vargas, onde o eixo nazista tinha grande aliado em terras tupiniquins. Em um ambiente onde se eram comuns medidas repressivas para posições políticas contrárias, e um governo populista, os trabalhadores já se organizavam, sejam no campo ou na cidade, contra um sistema que se assemelhava a uma ditadura, disfarçada por medidas que traziam certos graus de benefícios à parcela da população. Um quadro político parecido com outro golpe, que viria a se concretizar no ano de 1964.
Durante o período da Ditadura Militar Brasileira, muitos se opuseram às medidas repressoras, a torturas e crimes cometidos contra os diretos humanos. Sejam organizados em partidos, associações, sindicatos ou outros tipos de organização, brasileiros lutavam para restabelecer a democracia por todo o país, e foram repreendidos em grande quantidade.

Números do Grupo Tortura Nunca Mais revelam que no Brasil foram 396 vítimas oficiais da Ditadura, sendo 237 mortos e 159 desaparecidos políticos. Além disso, a política brasileira ficou restrita às mãos dos militares. Os opositores da ditadura usavam o que podiam para combatê-la: ideais, armas, mobilização, o que tinham em mente e em punhos era importante para trazer de volta ao país à democracia, à liberdade de expressão.
Muitos grupos se destacavam por sua luta. Os comunistas eram um destes grupos que lutavam contra os militares, indo por um caminho muitas vezes sem volta. Antes mesmo do golpe de 1964, os comunistas foram contra a ditadura de Vargas, na Revolução de 1930 e promoveram a Coluna Prestes, que elevou o nome do seu maior representante, João Luis Carlos Prestes.

O gaúcho Getúlio Vargas esteve no comando do poder executivo do Brasil entre os anos 1930 a 1945 e de 1950 a 1954. Durante seu governo, o partido comunista sofreu vários baques, sendo postos na ilegalidade e perseguido. A Coluna Preste, liderada pelo nome comunista mais conhecido na história nacional, Prestes, tentou tirá-lo do poder, de forma fracassada. Prestes acabou preso e exilado. Mas, Getúlio, temendo novas represálias que poderiam manchar seu nome diante dos brasileiros, preferiu o suicídio.

A FILIAÇÃO AO PCB – A participação de Severino na história da política de Caruaru se dá a partir do momento em que se filia ao Partido Comunista Brasileiro, partido que vivia na ilegalidade e sob constantes perseguições políticas, desde sua fundação. O PCB foi fundado em 25 de março de 1922, oriundo da cidade de Niterói, Rio de Janeiro, por intelectuais e pessoas que acreditavam nas ideias de nomes como Marx e Engels. Em sua trajetória enfrentou muitos obstáculos, sendo considerado ilegal por muito tempo.
Severino filiou-se ao partido comunista em 1950, após conhecer as ideologias de tal. Já em Caruaru, Severino resolveu militar do lado comunista, após seu primeiro contato com o PCB através dos jornais que lia nos intervalos de almoço de seu emprego na construção civil, como conta o Poeta.

“Comecei a ler o jornal do partido, que se chamava ‘A folha do povo’ e a me identificar com as ideias ali expostas. Aquelas matérias eram o que eu estava sentindo. Eu comecei a procurar o jornal e a me engajar nesta causa, porque aqueles textos, para mim, falavam a verdade. Depois tive contato com o presidente e secretário político do partido em Caruaru, Celestino Henrique Silva. Ele me levou para uma reunião e saí de lá já com a intenção de me filiar ao partido”.

Ao lado de companheiros, que Severino leva em sua memória, como Pedro Bento, Quitéria e Domerina Costa, realizou muitas caminhadas em prol da organização comunista. Ia de porta em porta, pelos bairros do Riachão, São Francisco, Divinópolis e tantos outros, espalhar a semente comunista. “O meu partido tem esse dever de ensinar os elementos a ter conduta de princípios de dignidade e humanidade, ressalta Severino.
No período de 1957 a 1964, o PCB de Caruaru contou com 30 militantes ativos e até 300 simpatizantes”. Mesmo a cidade mantendo uma política conservadora, com a industrialização com uma atividade ainda incipiente, o PCB contribuiu para a formação intelectual de muitos caruaruenses.


Comentários


...

Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro