16 de novembro de 2017 às 07h42min - Por Mário Flávio

Em pleno feriado de 15 de novembro, cerca de três mil pessoas tomaram as ruas de Caruaru para salientar a importância da família natural. Com uma programação mesclada por músicas e orações, a multidão transmitiu uma clara mensagem à sociedade: o Estado não pode intervir em questões familiares, como a forma que os pais devem conduzir a educação sexual dos filhos. Na pauta da marcha, estavam críticas à implementação da chamada “ideologia de gênero” nas escolas.

Amplamente defendida pela esquerda, esta ideologia afirma que a identidade sexual do indivíduo é resultado de uma construção exclusivamente cultural, que em nada tem a ver com os aspectos biológicos.

Pelas redes sociais, um exército de ativistas vermelhos esbravejou críticas contra a marcha, chamando-a de “retrocesso”, “cultura de ódio”, “intolerância” e – pasmem – até de “apologia a assassinatos”. Isso, é claro, além dos costumeiros, cansativos e histriônicos adjetivos de “fascismo”, “machismo” e outros “ismos” afins. Devido à falta de vontade (ou capacidade) de alguns militantes em debater as ideias, adota-se a falácia do espantalho – ignorando a posição do adversário, distorcendo-a e até mesmo passando a atacar quem pensa de forma diferente.

O objetivo dos grupos de esquerda é implementar esta agenda nas escolas, apesar de toda a mobilização que ocorreu nos últimos anos para tirar o tema dos planos Nacional, Estaduais e Municipais de Educação do Brasil. Porém, de acordo com uma nota da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), publicada em 2015, “as consequências da introdução dessa ideologia na prática pedagógica das escolas contradiz frontalmente a configuração antropológica de família, transmitida há milênios em todas as culturas. Isso submeteria as crianças e jovens a um processo de esvaziamento de valores cultivados na família, fundamento insubstituível para a construção da sociedade.”

Perceba-se que a oposição não é, necessariamente, à adoção de tal ideologia – quem quiser que a professe particularmente –, mas à imposição da mesma nos currículos escolares, contrariando os conceitos e os valores de grande parte da população.

Assim sendo, a realização da Marcha da Família expressa uma realidade que vai além da discussão sobre a ideologia de gênero. Por trás de todo o impasse, existe uma nítida aversão de parte da sociedade ao idealismo socialista, de que o Estado deverá ditar todas as dimensões da vida do cidadão.

No clássico ‘As seis lições’, o economista Ludwig von Mises aponta que “no socialismo, obviamente, o governo é totalitário, NADA escapando à sua esfera e sua jurisdição” (grifo nosso). Mesmo a família sendo uma instituição anterior ao Estado, os socialistas defendem que aquela deve se submeter a este, seguindo a cartilha dos líderes do comitê central. De acordo com esta concepção, não existe instituição que não deva se submeter ao Partido. Exemplo é o que está acontecendo na China, onde cristãos estão sendo obrigados a retirar das suas casas as imagens de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo e substituí-las por quadros do presidente Xi Jinping, do Partido Comunista – que governa o país desde 1949. O argumento utilizado pelo governo é que os cristãos, ao crerem em Deus como salvador, são “ignorantes” e “alienados”, e precisam aprender que dependem exclusivamente do Partido para viver.

O que se percebe é que as críticas à cristandade têm o mesmo perfil, tanto lá quanto cá.

No entanto, o que não passa pela cabeça da esquerda é a possibilidade de seus pressupostos estarem equivocados. Ora, a concepção histórica socialista é baseada no conceito de luta de classes, sob o idílio de que, no final, indubitavelmente ocorrerá a implantação do comunismo – um tipo de gestão que ninguém sabe explicar direito o que é, tampouco houve qualquer experimento positivo ao longo da história, mas é apresentado como a panaceia para todos os povos.

Vale lembrar que o filósofo austríaco Karl Popper (1902-1994) – o qual fez parte do Círculo de Viena e é considerado um dos mais relevantes do século XX, por ter estabelecido os critérios da falseabilidade e os limites da ciência – combatia ferozmente o marxismo, chamando-o de “pseudociência”. Uma das críticas de Popper era, justamente, à ótica de que a história traz em si um sentido oculto e desvendável, como apregoa o comunismo/socialismo. Para ele, essa teoria era errada, ou mesmo “absurda”.

“As expressões ‘progresso’, ‘retrocesso’, ‘declínio’ e por aí adiante contêm juízos de valor. E as teorias relativas a um progresso, a um retrocesso ou a um ciclo histórico, constituído por progresso e retrocesso, remetem necessariamente para uma escala de valores.

Tal escala de valores pode ser, então, de ordem moral, econômica ou estético-artística (…). É por demais evidente que podemos registrar progressos ou atingir pontos altos numa ou noutra destas escalas ou critérios, ao mesmo tempo que registramos retrocessos ou atingimos pontos baixos noutras”, explica, no livro ‘Em busca de um mundo melhor’, obra que reproduz diversas conferências por ele proferidas entre as décadas de 1950 e 1980.

Assim sendo, ao contrário do que querem fazer acreditar os esquerdistas de plantão, manifestações como a Marcha da Família não são “discursos de ódio”, mas gritos de liberdade. Tudo isso é um contraponto ao marxismo cultural que permeia setores como a educação, a mídia e as artes no Brasil. É a definição do caráter conservador da nossa cidade – ou seja, de preservação de valores. E, diferentemente do retrato que pintam dos conservadores – como seres antiquados e retrógrados –, vale levar em consideração o conceito de conservadorismo trazido pelo doutor em Ciência Política João Pereira Coutinho: “No fundo, ser conservador em política é afirmar: eu não sou uma criança; não preciso que o Estado seja o meu baby-sitter; eu desejo que o Estado me deixe em paz para eu tentar, acertar ou falhar por minha conta em risco”. Em outras palavras, não queremos ser escravos dos conceitos que estão sendo propagados pelos ideólogos; temos condições de “nos virarmos” por conta própria.

Para a esquerda, é difícil compreender que nem todos acreditam que ela seja a supremacia da virtude ou a solução dos males da sociedade. Daí o ‘bug’.

*Jennerson Alves é jornalista


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro