31 de outubro de 2013 às 08h55min - Por Mário Flávio
Políticos e familiares de militantes foram homenageados durante sessão - Foto: Vladimir Barreto/ Ascom Câmara

Políticos e familiares de militantes foram homenageados durante sessão – Foto: Vladimir Barreto/ Ascom Câmara

Uma pausa nas picuinhas entre oposição e situação na Câmara Municipal de Caruaru, a fim de dar lugar a um encontro de líderes políticos que enfrentaram uma época de perseguição durante a ditadura militar no Brasil, ou que testemunharam a redemocratização do país. Assim pode se definir a sessão solene realizada na noite desta quarta (29). O objetivo foi destacar os 25 anos da promulgação da Constituição Federal, 24 anos da Constituição Estadual, 23 anos da Lei Orgânica de Caruaru e o resgate dos diplomas de vereadores eleitos na década de 60, mas cassados pela ditadura.

Entre os ex-vereadores homenageados pelo período que marca a Lei Orgânica, estava Fernando Soares, o Fernando “Safadeza”, que relembrou um período em que parlamentares exerciam mandatos voluntários. “Nós fomos vereadores em uma época em que não ganhávamos salário por isso, mas lutávamos de peito aberto contra políticos criminosos, fascistas, para consolidar a democracia. É por isso que é importante fazer política e o povo tem que ir pra rua e força o governo a resolver os problemas do país, mas não como aqueles criminosos black blocs, mas através do diálogo”, destacou.

Os 20 ex-vereadores que participaram da promulgação da Lei Orgânica em 1990 foram homenageados.

Foram feitas ainda homenagens in memorian de figuras políticas importantes, como a entrega de um pergaminho em homenagem a família do ex-deputado constituinte José Antônio Liberato. A homenagem foi entregue a Roberto e Antonio Liberato, irmãos do vereador Ricardo Liberato (PSC). “Nossa família está honrada. Nosso pai sempre quis o bem para Pernambuco e, por isso, atuou muito nos trabalhos em benefício da constituição”, explicou Ricardo.

Entre outras figuras homenageadas, parlamentares constituintes caruaruenses destacados in memoriam  estavam ainda João Lyra Filho, Roberto Fontes e Adolfo José – pela constituição estadual – e Fernando Lyra – pela constituição federal. Em paralelo, a solenidade foi ainda um momento de encontro das gerações de militantes que presidiram a União dos Estudantes Secundaristas de Caruaru (UESC), algo comemorado pelo atual presidente, o jovem Gleison Rodrigues (PCdoB). “Hoje essa Câmara constroi história a partir do momento em que resgata a história desses líderes que não baixaram a cabeça durante a ditadura, inclusive aqueles que presidiram a UESC, como Fernando Lyra, Fernando Soares, e aquele que participou da fundação da entidade em Caruaru, Manoel Messias”, avaliou.

Contudo, o ponto emocional mais forte foi o reconhecimento simbólico da representatividade de políticos da Capital do Agreste cassados há quase 50 anos, a exemplo de Souza Pepeu (cassado em 21 de janeiro de 1965) e Chico do Leite (cassado em 21 de dezembro de 1964), homenageados in memorian. Para um dos que foram perseguidos e estiveram na Câmara, o economista Manoel Messias, isso representou a restituição da memória política em Caruaru.

“Estou aqui usando a tribuna que deveria ter usado em 1964, mas isso não me traz rancor. Na verdade, eu quero destacar Caruaru como uma cidade tolerante, em que em 64 os partidos conviviam aqui. Para se ter uma ideia, eu era na época do PCB, que tinha vários militantes mas era ilegal. Na verdade, eu não condeno quem compunha a Câmara e apoiou a perseguição que eu e outros companheiros sofremos, mas quero destacar o esforço desta legislatura em realizar esse resgate histórico. O grupo de militares que deu o golpe era um grupo pequeno, não muito mais de 7% das forças armadas. Por isso, eu também não condeno as forças armadas, mas acho eles deveriam restaurar sua dignidade para punir os indivíduos que cometeram crimes de tortura e perseguição durante a ditadura”, discursou.

Em um discurso emocionado, as palavras de Messias remontaram momentos de torturas vividas e de reflexões após a ditadura militar, o que indica a necessidade de relembrar e comemorar o processo de redemocratização, e como essa construção política em busca de participação social e diálogo, no País de Caruaru, ou no restante do Brasil, não pode apenas se restringir a intervalos de homenagens solenes.

Encontro de gerações de presidentes da UESC durante sessão solene - Foto: Vladimir Barreto/ ASCOM Câmara

Encontro de gerações de presidentes da UESC durante sessão solene – Foto: Vladimir Barreto/ ASCOM Câmara


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro