12 de dezembro de 2020 às 08h36min - Por Mário Flávio
Tribunal de Contas da União (TCU) durante café da mnha com o Poder 360. Brasilia, 25-01-2019. Foto: Sérgio Lima/PODER 360

O ministro José Múcio Monteiro Filho, 72 anos, está de saída do Tribunal de Contas da União. Encerrou seu mandato de 2 anos como presidente do TCU, deu posse à sua vice, a ministra Ana Arraes, e deve deixar a Corte no final de dezembro de 2020.

Múcio deixa o TCU a pedido, pois poderia permanecer no Tribunal até completar 75 anos. Numa entrevista ao Poder360 na última 4ª feira (9.dez.2020), em que fez um balanço de sua gestão, também falou do atual cenário do poder no Brasil –ele tem longa carreira política, incluindo o cargo de ministro das Relações Institucionais (2007-2009), durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva, e 5 mandatos como deputado federal pelo Estado de Pernambuco.

Ao analisar a conjuntura, observou o seguinte sobre a administração federal do presidente Jair Bolsonaro:

O governo perdeu uma grande oportunidade, com esse vírus, de fazer um grande pacto de governabilidade. Não é nem pelos que pensam igual ao governo. O vírus não tinha filiação partidária. Não era ideia de nenhum partido. Era o inimigo coletivo do Brasil, do mundo inteiro. Poderíamos nos juntar. Lamento até porque o governo gastou muito, mas não soube dar”.

Experiente em ler o cenário político, Zé Múcio, como é conhecido pelos amigos, foi citado algumas vezes como cotado para ser ministro, até com convite público de Jair Bolsonaro para atuar na articulação entre Planalto e Congresso. O ministro do TCU diz que não é o caso:

Eu ia desmanchar, na idade que estou. Eu iria criar um arranhão no meu currículo. Eu não tenho projeto, absolutamente nenhum. Vou me dar o direito de, ao sair daqui [TCU], poder ter projeto, poder sonhar, mas não há nenhum projeto de trabalhar em política, com política. Estou numa fase confortável, que já posso dar conselho”.

Sobre o TCU, diz que se trata de um “órgão de Estado”. Vê o Tribunal como “uma agência reguladora do dinheiro público (…) é ele que diz que a obra que começou naquele governo não pode parar, é ele que orienta a condução dos gastos e investimentos, se há boa aplicação dos investimentos”.

A maior crítica que ouviu logo que chegou ao TCU, em 2009, foi a de que se tratava de uma instituição hermética e com pouca transparência. “O Tribunal não dava satisfação. Quer dizer, nós parávamos uma obra, não dizíamos que paramos. Nós criávamos uma sanção qualquer a um gestor público e nós não dizíamos por que criamos essa sanção”, explica. Enquanto foi presidente, José Múcio procurou melhorar a relação do Tribunal com seus diversos interlocutores: governo federal, mídia e diversos órgãos públicos espalhados pelo país.

Descobriu que recentemente havia cerca de 14.000 obras públicas paradas no país, mas apenas 3% por causa do TCU ou de tribunais de contas estaduais e municipais. Quem interrompia, então? “Era Ministério Público, era Justiça de 1º Grau, Justiça de 2º Grau, era questão de sucessor com sucedido, o próprio governo ou os próprios governos tinham interesse que algumas obras não fossem elucidadas porque não tinham recursos para continuar”, explica. O TCU fez um levantamento completo a respeito.

No dia 30 de dezembro de 2020, José Múcio Monteiro Filho deixará o TCU. Sua sucessora como presidente, por ironia do destino, é Ana Arraes, filha de Miguel Arraes (1916-2005), que foi eleito governador de Pernambuco em 1986 derrotando justamente José Múcio.

Em 1986 eu tinha 37 anos e era a cara do passado. Ele tinha 70 e era a cara do futuro. Eu tinha sido prefeito pelo PDS. E o dr. Arraes, voltando do exílio, era a cara do futuro. Todos os artistas, todos os intelectuais o apoiavam porque estavam ansiosos por mudanças”, diz. “Aprendi muito com aquilo”.

Para a vaga ocupada por José Múcio no TCU vai o ministro Jorge Oliveira, da Secretaria Geral da Presidência da República, que já teve seu nome aprovado pelo Senado.


Comentários


...

Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro