4 de janeiro de 2016 às 12h07min - Por Mário Flávio

​O termo “país de Caruaru” cunhado pelo grandioso Nelson Barbalho sempre serviu para ressaltar as inúmeras peculiaridades na vida social na cidade e sempre captou a singularidade do processo político caruaruense. ​No entanto, o “país de Caruaru” nunca foi uma ilha perdida em meio a Pernambuco e ao Brasil. Ao contrário, Caruaru sempre esteve muito bem conectada à política estadual e nacional, basta lembrar o importante papel que o caruaruense Fernando Lyra teve ao longo do processo de redemocratização do país.

​A incerteza presente no cenário político local em relação as eleições municipais deste ano não é exclusividade de Caruaru. É uma incerteza nacional. Com a mudança promovida pelo STF ao declarar inconstitucional o financiamento privado empresarial das campanhas políticas abriu-se um abismo de incertezas e o reposicionamento das forças políticas ainda não permite apontar um caminho claro para o próximo pleito na cidade.

A única certeza, e baseada em dados bastante objetivos, é de que o governo Zé Queiroz atingiu um patamar de satisfação popular que faz do prefeito o maior cabo eleitoral nas próximas eleições. A literatura da Ciência Política sobre o federalismo brasileiro aponta que nas eleições municipais duas lideranças políticas possuem peso fundamental: o governador do estado e o candidato apoiado por ele. Dispondo de influência política e recursos, o governador é capaz de desequilibrar a disputa municipal.

​O governador Paulo Câmara, atualmente, é desprovido deste dois elementos: influência e recursos políticos. O governador não é bem avaliado pelo eleitorado pernambucano, não é a toa que até agora não saiu nenhuma pesquisa séria indicando um nível elevado de aprovação do governador. Há somente aquela pesquisa do Instituto Paraná, suspeitíssimo por sinal, que na última campanha presidencial perdeu qualquer credibilidade, se é que já teve algum dia.

​Logo, Zé Queiroz desponta como a liderança, talvez única neste momento, que está muito bem avaliado ao final de um quarto mandato como prefeito. Este é um cenário muito claro. Queiroz possui influência política sobre o eleitorado e recursos políticos à sua disposição construídos nos seus dois últimos mandatos. Neste ponto, o PT entra com uma parcela de contribuição. Desde 2009, o PT de Caruaru se empenhou na construção de uma agenda muito positiva no governo Queiroz. Sabiamente, o prefeito soube aproveitar esta disposição e posicionou o PT em áreas muitos sensíveis a população nos dias de hoje: 

1) Direitos Humanos (Gênero, LGBT e políticas étnico-raciais) que embora sejam demandas generalizadas é um tema que interessa particularmente aos eleitores mais jovens; 

2) Participação Social que também é uma demanda social generalizada e que encontra seu nicho mais profundo nas periferias e; 

3) Na Saúde, trazendo a experiência de gestores petistas na construção e desenvolvimento do SUS e que é um das áreas mais sensíveis a toda a população.

Portanto, concretamente, há apenas um cenário possível para o PT em 2016 em Caruaru: continuar fortalecendo a aliança PDT-PT em Caruaru. Há, entretanto, quem defenda a candidatura própria do PT à disputa ao cargo de Prefeito. O pleito é legítimo, mas o argumento muito frágil e não considera todos os cenários que se apresentam para as próximas eleições. O primeiro ponto de fragilidade é afirmar que a candidatura própria tem como objetivo defender o legado de Lula e Dilma na presidência. Se essa fosse a maneira mais eficiente de defender o legado de Lula e Dilma o PT deveria então lançar candidaturas em todas as cidades e assim todo o legado seria defendido.

O segundo ponto é que lançar uma candidatura própria demanda duas decisões: 

1) Uma decisão estratégica nacional que apresente o lançamento de candidaturas próprias como fundamental para o partido em nível nacional;  

2) que o PT nacional disponha de recursos para financiar inicialmente todas estas candidaturas (Guia eleitoral, material impresso e etc.). Mesmo assim, o sucesso de uma candidatura própria dependeria crucialmente da estrutura política do partido na cidade, isto é, vereadores do partido e um corpo representativo de candidatos que fosse capaz de alavancar eleitoralmente os diversos setores e movimentos sociais em que o partido atue.

É nesse momento que o PT de Caruaru encontra suas maiores dificuldades. O grupo que controla a atual direção do partido assumiu o compromisso em campanha de melhorar justamente em sua organização política. A maior crítica era que o partido estava desestruturado na cidade, sem sede, sem reuniões, sem estratégias. Pelo que se vê, tudo continua igual, ou pior. A atual presidência não conseguiu sequer unir minimamente o partido. Inclusive, parte de seus apoiadores e ex-fiéis escudeiros dentro da direção do partido estão de saída do PT. Sobrou o quê? Apenas fazer discurso do mundo da fantasia e dizer PT vai lançar candidatura própria.

A atual presidência do partido tem a percepção absurda de que o cargo serve apenas de trampolim social. Aparecer nos blogs, falar nas rádios, divulgar fotos de reuniões privadas com lideranças locais, divulgar notas públicas horríveis (como aquela que dizia que PT deveria deixar o governo Queiroz pelo fato de que nada havia sido ofertado ao partido). Nunca foi divulgada uma foto de uma reunião do Diretório Municipal. Nunca foi feito um debate sério sobre as estratégias do partido. O que existe é muita coluna social e pouquíssimo raciocínio político.
            

Esta proposição da candidatura própria atende apenas a projetos pessoais que estão totalmente desconectados da atuação do partido na cidade. Para os defensores deste posicionamento sugiro um argumento mais honesto: Reconheçam que o PT em Caruaru ganhou experiência nos últimos anos na implantação e gestão de políticas públicas que foram criadas e impulsionadas pelos governos Lula e Dilma. Este argumento é mais honesto e garante mais legitimidade ao pleito, pois as políticas implementadas pelo PT na gestão de Zé Queiroz são parte importante do legado do governo Lula e Dilma em Caruaru.

 *Vanuccio Pimentel – Ex-presidente do PT de Caruaru. Doutor em Ciência Política e professor da Faculdade ASCES.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro