25 de junho de 2015 às 08h36min - Por Mário Flávio

O Papa Francisco não para de surpreender o mundo com suas mensagens e posições avançadas e em conformidade com as aspirações de uma Igreja que precisa evoluir em seus ensinamentos e posturas mais humanas, a exemplo do seu criador Jesus Cristo. A nova encíclica Laudato Si (“Louvado Sejas”), produzida totalmente por suas mãos e em seu papado, destaca-se uma frase que foi repetida por 3 (três) vezes nas mais de 190 páginas: “tudo está conectado”.

Faz lembrar a fraseologia pregada por Leonardo Boff há anos, e vai profundamente afirmando que o ser humano não está dissociado da Terra ou da natureza: eles são partes de um mesmo todo. Portanto, destruir a natureza equivale a destruir o homem. E destruir o homem, para os católicos, é pecado. Da mesma forma, não é possível falar em proteção ambiental sem que esta envolva também a proteção ao ser humano, em especial os mais pobres e vulneráveis.

Dentro do contexto da encíclica, advém o raciocínio que o papa intitula de “ecologia integral”, construindo a argumentação religiosa bem como as prescrições políticas – que Francisco o faz no alto e bom tom – quando critica a incapacidade das conferências internacionais de responder à crise climática, sugerindo uma saída gradual dos combustíveis fósseis e até mesmo propõe mudanças no modelo atual de licenciamento ambiental.

O texto da encíclica, no que pese a crise climática, é uma das facetas de uma mesma grande crise ética da humanidade. Esta é produzida pela ruptura das relações com Deus, com o próximo e com a terra, que o Papa chama de as “três relações fundamentais da existência”. Os padrões insustentáveis de produção e consumo da sociedade global, impulsionados pela tecnociência fora de controle, levam à degradação das relações humanas e à degradação também da “nossa casa comum”, que é como Francisco chama o planeta.

Na verdade, quase nada deixou de ser mencionado na agenda socioambiental do Papa Francisco: além do clima, lembra e alerta sobre a proteção dos oceanos, poluição da água, espécies ameaçadas, florestas e povos indígenas. Em relação a todos esses temas, as principais críticas recaem sobre os países ricos (a expressão “produção e consumo” aparece 5 (cinco) vezes no texto), que são chamados a compensar os pobres pela degradação, não deixando de responsabilizar os países em desenvolvimento que são também estimulado a examinar o “superconsumo” de suas classes abastadas e a não repetir a história dos ricos durante seu desenvolvimento.

Francisco vai além, compra uma briga histórica com a direita evangélica norte-americana ao sugerir que a noção de que o homem deve “sujeitar” a natureza é uma interpretação errada da Bíblia: jamais se supôs uma “sujeição selvagem”, diz, e sim um “cuidado”. A diferença é fundamental, já que os republicanos nos EUA frequentemente justificam a degradação ambiental citando as Escrituras, que colocam o homem numa posição de domínio sobre o ambiente.

O Laudado Si apresenta uma evolução no olhar da teologia ao colocar o homem como parte da natureza – uma parte especialmente criada por Deus, é verdade –, não como algo separado dela. Francisco avança de forma ecumênica em todas as religiões declarando, de saída, que a encíclica não é feita apenas para os católicos, mas para toda a humanidade, de todas as religiões, crentes e não-crentes.

A Carta Encíclica ‘Louvado Sejas’ trata sobre o Cuidado da Nossa Casa Comum – a Terra – e é bom ter conhecimento que o documento completo está dividida em 6 (seis) Capítulos e 246 parágrafos, seguidos de duas orações escritas pelo próprio Francisco (uma delas intitulada Oração pela Nossa Terra). No primeiro Capítulo, o Papa faz um apanhado geral sobre “o que está acontecendo com a nossa casa”, resumindo as aflições ambientais do mundo amparado na ciência. No segundo, “O Evangelho da Criação”, ele traça uma argumentação teológica sobre as ligações entre nós (humanos) e natureza. No terceiro, aborda as raízes humanas da crise ecológica; no quarto, discorre sobre sua “Ecologia Integral”.

No quinto, apresenta seu chamado à ação, inclusive política, no âmbito internacional, mas também no dos governos locais – fazendo eco ao princípio do “pense globalmente, aja localmente” consagrado na Eco-92. No sexto, trata de educação, cultura e “espiritualidade ecológica”. A encíclica dá sua primeira grande pincelada na questão climática, decretando, com base num “consenso científico muito consistente”, que a culpa pelo aquecimento da Terra é dos gases do efeito estufa emitido pelos seres humanos, como afirma o IPCC. Aborda a questão dos impactos sobre os mais pobres e dos refugiados do clima, populações que não têm sequer o reconhecimento oficial de sua situação; a perda do sentido de responsabilidade pelos nossos semelhantes, sobre o qual se funda toda a sociedade civil.

Aponta a urgência do desenvolvimento de energias limpas e renováveis e da redução “drástica” das emissões de gases do efeito estufa nos próximos anos, reconhece que ainda é preciso desenvolver tecnologias de acumulação de energia (baterias), mas aponta que existem “boas práticas” em vários setores, como construção civil, produção e transporte. Faz mais um aceno à ciência ao afirmar que “já foram superados alguns limites máximos de exploração do planeta”.

A tese dos limites planetários que foi proposta em 2009, por um grupo de pesquisadores liderados pelo sueco Johann Eckström. Onde há 9 (nove) limites que não devem ser ultrapassados para o funcionamento da biosfera, e a humanidade já ultrapassou 2 (dois): o efeito estufa e o balanço de nitrogênio e fósforo; perda da biodiversidade falando de florestas e de como não temos o direito de causar a extinção de outras espécies. O Papa chega mesmo a dizer que boa parte do nosso código genético é compartilhada com outras espécies – irritação garantida para os fundamentalistas cristãos, e alerta contra as extinções em massa de espécies, que são vistas como “recursos” e não em seu valor inerente.

Fala da Amazônia e do Congo, chamando-os (equivocadamente) de os “pulmões do mundo” (uma vez que pulmão não produz oxigênio). Num aceno aos bispos latino-americanos, entre os quais esse discurso é ainda forte, alerta contrapropostas de internacionalização da Amazônia “que servem unicamente aos interesses econômicos das multinacionais”. A desigualdade planetária, delineia um elemento importante da “ecologia integral”, ao dizer que é preciso escutar tanto o grito da Terra quanto o dos excluídos; trata do debate frequente entre países desenvolvidos e em desenvolvimento: de quem é a culpa pela degradação ambiental, do consumo insustentável? Critica a “falência” das cúpulas ambientais, causada pela submissão da política à tecnologia e às finanças; aborda o meio ambiente como questão de segurança internacional da humanidade em sua permanência no planeta; justifica a inserção de um Capítulo sobre fé numa encíclica dirigida a todas as pessoas, crentes ou não, propondo um diálogo entre ciência e religião, “intenso e produtivo para ambas”.

Preocupado com o crescimento das cidades, há um extenso trecho da encíclica que trata do meio ambiente urbano e da qualidade de vida nas cidades, tema cada vez mais essencial na medida em que cresce a população urbana; defende o princípio das responsabilidades comuns, mas diferenciadas, e alerta contra a “internacionalização dos custos ambientais”.

Por fim, retomando a argumentação religiosa, desta vez mais especificamente voltada ao seu rebanho, detalha a ideia de “conversão ecológica”. Diz que a preocupação com o ambiente é um imperativo moral para os crentes, não algo opcional ou secundário. Este é o coração da mensagem da encíclica para os católicos:

“(…) a crise ecológica é um apelo a uma profunda conversão interior. Entretanto temos de reconhecer também que alguns cristãos, até comprometidos e piedosos, com o pretexto do realismo pragmático frequentemente se burlam das preocupações pelo meio ambiente. (…) Viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspecto secundário da experiência cristã, mas parte essencial duma existência virtuosa.”

E deixa um recado aos cristãos: “se fossem mais cristãos, não precisariam consumir tanto. Menos é mais”.

*Marcelo Rodrigues é ambientalista e professor universitário


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro