3 de novembro de 2016 às 09h05min - Por Mário Flávio

Síndrome de Estocolmo é o nome atribuído a um estado psicológico particular em que uma pessoa, submetida a um tempo prolongado de intimidação, passa a ter simpatia e até mesmo sentimento de amor ou amizade perante o seu agressor. Parte de uma necessidade, inicialmente inconsciente e, ao contrário do que se imagina, ela não é tão rara quanto se pensa, não se resumindo somente a relações entre raptores e reféns.

Escravos e seus senhores, sobreviventes de campos de concentração, aqueles submetidos a cárcere privado, pessoas que participam de relacionamentos amorosos destrutivos, e até mesmo algumas relações de trabalho extremas, geralmente permeadas de assédio moral, podem desencadear o quadro. Um capítulo que poderá ser estudado por cursos de psicologia, antropologia, sociologia, filosofia ou tantos outros que procurem entender as relações humanas em um contexto específico, assim poderemos pensar nas eleições 2016 e a evidente referência a Síndrome de Estocolmo.

Explicar o resultado das urnas no pleito encerrado no último domingo, em todo Brasil, não será uma tarefa das mais simples, nem para analistas políticos, filósofos ou psicólogos, considerando a leitura que se faz após o resultado final. Observando números absolutos, considerando votos obtidos e municípios que governará a partir de 2017, certamente temos o Partido dos Trabalhadores como grande derrotado das eleições municipais, porém uma análise que não foi feita, a priori, é que o PT lançou aproximadamente 1/3 do número de candidatos em comparação com as eleições de 2012, o que poderia justificar esse resultado.

Mas isso não pode ser algo justificável, quando analisamos a perda de municípios importantes e/ou históricos para a legenda (como no ABCD paulista), em vários municípios do Rio Grande do Sul ou a derrota em Recife. O elemento que instiga a análise vai além da derrota numérica do PT (e dos partidos identificados ideologicamente como de esquerda), mas a vitória eleitoral do PMDB e do PSDB em todo país, além da pulverização dos partidos que elegeram prefeitos, certamente pode dar um indicativo para essa avaliação.

Os dois maiores partidos que representam o segmento conservador da sociedade brasileira (e que deram sustentação ao processo de impedimento da presidenta Dilma Rousseff), foram justamente os maiores beneficiários do processo eleitoral de 2016. O grande questionamento que se faz é a coerência dos que gritaram contra a corrupção (muitos incitados pela grande mídia), que na hora de votar não fizeram o “dever de casa”, afinal PMDB e PSDB lideram (junto com DEM e PP) a lista de políticos envolvidos em corrupção, segundo o TSE.

Não faremos juízo de valor acerca do tema, de maneira isolada, até porque certamente existem pessoas tidas como “do bem” ou “do mal” em todos os lados, mas certamente existem ares de incoerência na “resposta das urnas”, quando se vota contra a corrupção e se escolhe partidos que nitidamente estão envolvidos nestas condições. Ao falar em partidos envolvidos, retomo a discussão da “fulanização” da política como um fenômeno, quando não aceitamos o discurso fácil e com contornos fascistas de repulsa aos partidos políticos, ademais o enfraquecimento dos partidos podem trazer resultados mais preocupantes que os indicados no pleito de outubro/2016, além de fortalecimentos significativos dos componentes da chamada bancada “BBB” (boi, bala e bíblia), dentre outras (a substituição dos partidos pelas bancadas segmentadas também é elemento de reflexão).

Outro fator que carece de análise e que demonstra a falta de coerência entre discurso e prática demonstrada, refere-se alternância de poder, apontado como elemento fundamental para a democracia, mas que não se demonstra tão claramente quando analisamos além dos resultados eleitorais, observando as características de alguns eleitos, que embora em partidos diferentes, mantém um alinhamento ideológico com os antecessores que encerram seus mandatos em 31 de dezembro próximo.

O surgimento da chamada nova classe média (outrora denominada pequena burguesia) e a imposição do conceito de meritocracia, também foram determinantes para o resultado do pleito país afora, vez que os trabalhadores de antes, passaram a analisar a sociedade com uma nova perspectiva, sendo microempreendedores e avaliando que seu crescimento financeiro – pessoal e familiar – se dava por méritos próprios e não decorrentes de uma política de inclusão social, que permitiu a grande parte da população de baixa renda ter ganhos muito pequenos, mas que certamente faziam a diferença, ao ter direito de almoçar num restaurante, planejar viagem de férias com a família ou o primeiro voo num avião.

Ao buscar uma análise racional dessa situação, não se pode eximir condutas adotadas pelo próprio PT (que ao assumir práticas e discursos de partidos conservadores e toleradas na “democracia burguesa”), inclusive com alianças que fragilizam o arcabouço ideológico-moral que sempre foi o elemento de destaque do partido, desde sua fundação, no frustrante resultado das urnas, devendo assumir a autocrítica como determinante para seu futuro e a escolha de novas práticas políticas, para recuperar a credibilidade atacada pelos seus opositores (eleitorais e ideológicos).

Essas são apenas considerações iniciais para que se possa aprofundar o paralelo que fazemos entre os resultados apurados em todo Brasil, nas eleições 2016, e a Síndrome de Estocolmo, onde as principais vítimas da instabilidade política estatal (instalada desde o processo eleitoral de 2014) pudessem escolher justamente o lado que nega conquistas sociais, defendem o estado mínimo, apregoam a necessidade de corte de gastos sociais, mantendo, porém, benefícios que garantam sua manutenção no poder, nos fazendo vislumbrar um rápido processo de empobrecimento das camadas mais elementares da sociedade, perdas de conquistas históricas (não apenas para trabalhadores, como para as mulheres, negros, jovens, LGBT). O resultado eleitoral coloca 2016 como um ano singular, o ano em que o relógio da história retrocede – pelo menos – 55 anos.

*Antônio Carvalho – CEO do escritório Antônio Carvalho Advocacia e Consultoria e Membro da Executiva Municipal do PT/Caruaru.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro