Opinião- Quando a estupidez se torna perigosa: ou, a epistemologia do detergente – por Fred Santiago*

Mário Flávio - 22.05.2026 às 13:41h

Todas as pessoas estão sujeitas a um certo grau de ignorância, e isso é absolutamente normal em função do caráter de incompletude do conhecimento, pois nunca possuímos o conhecimento em sua totalidade, sendo, por isso, necessária, a sua busca incessante. Na verdade, há inclusive um aspecto de positividade na ignorância, pois é tomando consciência de que ignoramos muitas coisas, que podemos dar o primeiro passo na infindável caminhada em busca do saber, como bem afirmava o filósofo grego Sócrates.

Atualmente, no entanto, assistimos, um tanto perplexos, ao desenrolar de um certo tipo de ignorância que se apresenta absolutamente distinta daquela própria da perspectiva socrática. Trata-se da burrice como fenômeno sociológico e que, portanto, se caracteriza não somente como uma ausência de inteligência em nível pessoal, mas, sobretudo, como aspecto constituinte da sociabilidade para uma enorme parcela da população. É justamente por ocorrer como fenômeno social, que essa forma atual da estupidez dificilmente é percebida pelo estúpido, ou seja, o burro dos tempos atuais não se percebe como burro e, por essa razão, jamais coloca suas “verdades absolutas” à prova, permanecendo sempre fechado a qualquer objeção que lhe seja feita.

Completamente imbuído em seu sistema de crenças, que se caracteriza por uma simbiose esdrúxula de teorias da conspiração, negacionismo científico, invencionismo histórico e uma lógica da refutação capenga, o estúpido atual é incontido, ou seja, não consegue deixar de opinar sobre qualquer assunto, mesmo que seja um tema do qual ele desconheça completamente, pois a imensidão de frases prontas que encontram-se disponíveis no repertório de seu sistema de crenças lhe fornece a ilusão de um conhecimento total, pronto para ser externado a qualquer momento e em qualquer circunstância, até mesmo na situação de o estúpido se encontrar diante de alguém que se dedicou durante anos a pesquisar um determinado tema.

Por mais que sejamos tentados – e, em alguns casos, é quase impossível não o fazer – não podemos tratar a burrice atual com desdém ou chacota, pois, como afirmado anteriormente, trata-se de um fenômeno social e, como tal, está relacionado diretamente com as atuais circunstâncias históricas. Basta observarmos o quanto essa estupidez coletiva está sendo instrumentalizada como estratégia política para compreendermos que se trata de algo que vai para muito além do cômico. E, é aí, que a burrice se torna perigosa, pois acaba se tornando uma ferramenta bastante útil para determinados movimentos políticos extremistas.

No contexto de ascensão do nazismo na Europa Robert Musil, num escrito intitulado Sobre a Estupidez, já nos alertava sobre os perigos da burrice como fenômeno social. Segundo esse escritor, não podemos confundir a estupidez ingênua, oriunda da temporária falta de conhecimentos, como o que ele chamou de “burrice superior”, que é aquela que se traveste de “outra perspectiva intelectual”, quando, na verdade, é expressão de uma estratégia política que vai, lentamente, se inoculando na vida social e ganhando ares de verdade absoluta. Assim, na visão de Musil, não se pode compreender o processo de naturalização das ideias difundidas pelo nazismo sem relacioná-las com a epidemia de “burrice superior”, que ocorria naquele período histórico.

É nesse sentido que a estupidez, enquanto fenômeno social, se torna perigosa. Ela legitima preconceitos, discurso de ódio, apologia da violência e muitas outras práticas que visam a destruição de quaisquer resquícios de dignidade humana. O burro atual, que afirma veementemente a forma plana do planeta Terra, é o mesmo que endossa um golpe de Estado que visa a instalação de uma ditadura.

Não é tarefa fácil combater a burrice atual. Ela é rápida e está sempre um passo à frente da inteligência. Diferente da inteligência, que procede analiticamente, a estupidez atual é preguiçosamente sintética. Por essa razão, há um enorme dispendido de tempo na tentativa de explicá-la. O burro, ao contrário, pensa apressadamente, simplifica aquilo é complexo e, em hipótese alguma, está aberto a ideias que escapem ao seu sistema de crenças. Acuado, o estúpido atual utilizava uma série de artimanhas: mente, falsifica dados, profere falsas citações e se utiliza das mais diversas falácias. No entanto, apesar de todas as dificuldades, o combate a burrice atual nunca foi tão necessário, pois não se trata de combater apenas a estupidez, mas de enfrentar a barbárie que lhe subjaz.