Opinião – Escala 5×2: entre o descanso e a realidade, estamos debatendo da forma certa? – por Adjar Soares*

Mário Flávio - 23.04.2026 às 08:36h

O Brasil voltou a discutir a jornada de trabalho. E, mais uma vez, o tema ganhou força rapidamente. A ideia de ampliar o período de descanso do trabalhador é legítima. Todos nós queremos mais qualidade de vida, mais tempo com a família e menos desgaste no dia a dia. Mas será que estamos debatendo esse assunto da forma mais completa?

Ou estamos olhando apenas para uma parte da equação? Essa é uma reflexão importante. Porque decisões que envolvem trabalho, renda e funcionamento das empresas não são simples. Elas impactam toda a engrenagem da economia. E quando um tema dessa dimensão avança com tanta velocidade, algumas perguntas se tornam inevitáveis.

Por que tanta pressa para discutir uma mudança tão estrutural? Será que todos os impactos estão sendo considerados? Estamos ouvindo quem está na ponta, vivendo essa realidade todos os dias? E há um ponto que não pode ser ignorado. Estamos em um ano eleitoral. E justamente por isso, decisões desse porte exigem ainda mais cautela.

O debate precisa ser técnico, responsável e profundo. Não pode ser conduzido pela urgência do momento nem pelo apelo fácil. Não se trata de questionar a proposta. Trata se de questionar o ritmo e a forma como ela está sendo conduzida. A realidade de quem gera emprego O Brasil é um país de pequenos negócios.

Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, a grande maioria das empresas brasileiras é formada por micro e pequenas empresas. São negócios que funcionam com equipes enxutas, margens apertadas e muito esforço diário. No comércio, essa realidade é ainda mais evidente.

São lojas abrindo cedo, fechando tarde, funcionando em fins de semana e dependendo diretamente da presença das pessoas. Se alguém não está, alguém precisa estar. E isso tem custo. O que acontece na prática? Quando olhamos para a nossa realidade, esse cenário fica ainda mais claro.

No Agreste pernambucano, o comércio é mais do que uma atividade econômica. Ele sustenta milhares de famílias. As feiras, o arranjo produtivo da confecção e os pequenos negócios de bairro movimentam a economia todos os dias. É comum encontrar pequenas lojas com dois ou três funcionários, onde o próprio dono participa de toda a operação, do início ao fim do expediente.

Agora imagine essa situação. Se um funcionário passa a ter mais dias de descanso, quem cobre esse horário? O empresário contrata mais alguém? Assume esse custo sozinho? Trabalha ainda mais para compensar? Ou reduz o funcionamento e perde vendas? E, se optar por repassar esse custo para o preço, surge outra dúvida inevitável: o produto vai continuar competitivo?

Não existe resposta simples. E essa mesma realidade se repete em padarias, mercadinhos e lojas de bairro. Quando o custo muda de lugar. As entidades do setor, como a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas, têm feito esse alerta com atenção. Não como oposição ao trabalhador, mas como um sinal de preocupação com os efeitos práticos.

Quando o custo aumenta, a empresa precisa reagir. E essa reação geralmente acontece de três formas
reduzindo equipe evitando novas contratações ou ajustando preços. E aqui entra um ponto que merece atenção. Gerar inflação não prejudica apenas o consumidor. Prejudica também o trabalhador, que vê sua renda sendo consumida pelo aumento dos preços.

Ou seja, o impacto não fica na empresa. Ele se espalha por toda a economia e chega diretamente no dia a dia das pessoas. Diante disso, surge uma reflexão inevitável. Será que uma mudança pensada para melhorar a vida do trabalhador pode, sem os ajustes necessários, acabar pressionando o custo de vida e dificultando novas oportunidades? O outro lado que precisa entrar no debate.

Se o objetivo é melhorar a vida do trabalhador, talvez seja importante ampliar a discussão. Por que não tratar, ao mesmo tempo, da redução da carga tributária sobre as empresas? Por que não facilitar a contratação? Por que não dividir melhor esse impacto? Essas perguntas não são contrárias à mudança.

Pelo contrário. Elas ajudam a construir uma solução mais equilibrada e mais sustentável. O desafio de fazer dar certo. É possível avançar? Sim. É necessário? Também. Mas talvez o ponto principal seja como fazer isso. Uma mudança desse porte dificilmente funciona de forma uniforme. Cada setor tem sua dinâmica. Cada região tem sua realidade. Cada negócio tem sua capacidade.

Permitir adaptação, construir uma transição gradual e dar flexibilidade para empresas e trabalhadores pode ser um caminho mais responsável. Uma reflexão para continuar o debate. No fim das contas, não se trata de escolher entre o trabalhador e a empresa. Um depende do outro. O que está em jogo é encontrar um modelo que permita avançar sem gerar efeitos colaterais difíceis de corrigir depois.

E talvez a pergunta mais importante seja essa: Estamos discutindo apenas o benefício… ou estamos preparados para lidar com as consequências? E você, o que pensa sobre isso? Esse é um tema que precisa ser construído com diálogo. E você, que é trabalhador ou que é empresário empreendedor, o que pensa sobre isso?

Uma mudança mais rápida, atendendo a um desejo imediato? Ou uma transição mais gradual, buscando equilíbrio entre emprego, empresas e custo de vida? Sua opinião é importante. O debate precisa ouvir quem vive essa realidade todos os dias.

*Adjar Soares é vice-presidente FCDL-PE e diretor CDL Caruaru