Opinião: “Cuidado com os encantos da mosca azul”. Por Paulo Nailson

Era uma mosca azul, asas de ouro e granada,
Filha da China ou do Indostão.
Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada.
Em certa noite de verão.

Então ela, voando e revoando, disse:
— “Eu sou a vida, eu sou a flor
Das graças, o padrão da eterna meninice,
E mais a glória, e mais o amor”.

E ele deixou-se estar a contemplá-la, mudo
E tranquilo, como um faquir,
Como alguém que ficou deslembrado de tudo,
Sem comparar, nem refletir.

Esses trechos iniciam o poema A mosca azul, de Machado de Assis, (Poesias Completas, 1901). Mosca Azul também é, nas regiões mais pobres, atrasadas e sem saneamento brasileiras, um tipo de mosca varejeira, que somente sobrevive porque se alimenta de dejetos humanos.

Conhecendo o poema, a tal varejeira e lendo o livro com o mesmo nome da autoria de Frei Betto, histórico militante da esquerda brasileira. Entre outras passagens, Betto fala com convicção do ideal construído pela nova esquerda após o golpe militar de 1964, da estratégia política voltada para a capacitação de novas lideranças no movimento popular e dos momentos difíceis que enfrentou na prisão, durante a ditadura militar, fui levado a muitas indagações e reflexões sobre o momento sócio-político que estamos inseridos e concluindo mais um ano.

Em alguns momentos que tenho vivenciado e no Caruaru 2030 desta semana, pude ver o governo oportunizando a participação de lideranças eclesiásticas, civil, comunitárias, e das mais variadas ramificações da sociedade.

 Vivemos num clima de euforia com as muitas conquistas, índices expressivamente positivos, expectativas e projeções otimistas tanto para o desenvolvimento econômico, empresarial, urbanístico, social, etc…

 O ano novo se aproxima e viveremos mais uma vez o tradicional clima de “guerra” entre os defensores deste ou daquele candidato.

 O recado vem primeiro para mim, pois os ouvidos mais próximos de minha boca são os meus, e vai para todos que terão uma participação mais ativa neste contexto de ser participante das próximas décadas em nosso município, neste clima de euforia de tantas conquistas e boas projeções, cuidemos para não ser picados, ou melhor dizendo, encantados com a mosca azul.

Seja onde for a sua atuação, imprensa, Ongs, sindicatos, movimentos sociais, órgãos governamentais, etc. O que deve prevalecer é a consciência de que o projeto de eleição não deve superar o projeto de cidade. Na medida em que um projeto de cidade for abandonado em favor de um projeto de eleição cria-se um projeto de poder sem a consciência de que este poder precisava ser instrumento que fortalecesse as bases sociais.

 Andei pensando por estes dias como será a vida da gente daqui a 20 ou 30 anos. Não saberia descrever nem sei se ainda terei a graça divina da vida. Mas sei que muito do que acontecerá depende das decisões e ações de hoje. Parafraseando Betto sei que não haverei de participar de muitas destas conquistas que virão pela frente. Mas faço questão de ficar ao lado dos que lançam, ainda que em terra árida, as sementes de um futuro melhor.

NOVOS TEMPOS

O que dizer aos deputados petistas que não assinaram o pedido de CPI da Privataria Tucana?

ACONTECENDO NA GRÉCIA

Desde maio, o povo voltou a ocupar espaços que havíamos abandonado nas últimas duas décadas: assembleias gerais começaram a ser organizadas em todas as cidades, retomando as praças públicas.

EM 2012 SEJAMOS…

“do tamanho que se é, nem maior nem menor do que ninguém. E sustentar a esperança na certeza de que só haverá colheita se desde agora se cuidar, delicada e anonimamente, da semeadura. Enquanto uns saem para caçar borboletas, prefiro cuidar do jardim para que elas venham” (Mário Quintana).

Paulo Nailson é militante político com atuação em movimentos sociais, Membro da Articulação Agreste do Fórum de Reforma Urbana (FERU-PE) e Articulador Social do MTST. Edita a publicação cristã Presentia. Foi filiado ao PT por mais de 10 anos. Cursa Serviço Social.

Jornalista e blogueiro.

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