Artigo – Onde o Socialismo deu certo? Para além dos reducionismos – por Alberes Silva

A partir da banalização de alguns conceitos que são colocados de forma equivocada e passada com verdades prontas em análises históricas e/ou com preconceitos acadêmicos, venho externar a minha reflexão sobre uma temática que é frequentemente questionada/debatida por muitos que se interessam pela abordagem das ideologias, e por incrível que pareça, a maioria dos brasileiros afirmam seguir uma tendência ideológica, e aqueles que dizem não ter ideologia, automaticamente já estão se posicionando de forma ideológica.

Na atualidade, muito mais que um conceito bem definido, o socialismo virou símbolo de preconceito por muitos intelectuais e por uma gama significativa da sociedade que reduzem o conceito a partir de frases prontas que não contribuem em muita coisa para o debate, entre alguns chavões pobres de conhecimentos, destacamos: “O socialismo matou mais”, “tá achando ruim, vai pra Cuba”, “Olha o resultado da Venezuela”, “Socialismo é incompatível com Cristianismo” ou a mais sem criatividade de todas “Aonde o socialismo deu certo?”

O socialismo cientifico é um modelo político ideológico estruturado por Karl Marx e Friedrich Engels ainda no século XIX, podemos sintetizar didaticamente a raíz das suas ideias da seguinte maneira: A BUSCA PELO BEM COMUM DA VIDA EM SOCIEDADE.

Os reducionismos conceituais ignoram o significado de BEM COMUM, vivemos em um modelo econômico que estimula a competitividade, meritocracia, consumismo alienado para que a satisfação de viver seja apenas atitudes individuais, a satisfação coletiva não faz parte da cartilha capitalista, estamos há aproximadamente cinco séculos de capitalismo e ainda convivemos com milhões/bilhões de pessoas que não têm acesso ao mínimo de necessidades básicas para a sobrevivência.

População mundial: 6,8 bilhões, dos quais: (dados de 2010)

• 1,02 bilhão têm desnutrição crônica (FAO, 2009)

• 2 bilhões não têm acesso a medicamentos (www.fic.nih.gov)

• 884 milhões não têm acesso a água potável (OMS/UNICEF 2008)

• 1, 6 bilhão não tem eletricidade (UN Habitat, “Urban Energy”)

• 2,5 bilhões não tem acesso a saneamento básico e esgotos (OMS/UNICEF 2008)

• 774 milhões de adultos são analfabetos (www.uis.unesco.org)

• 218 milhões de crianças, entre 5 e 17 anos, trabalham em condições de escravidão ou em tarefas perigosas ou humilhantes, como soldados, prostitutas, serventes na agricultura, na construção civil ou na indústria têxtil (OIT: A Eliminação do Trabalho Infantil: Um Objetivo a Nosso Alcance, 2006).

Quando simplificam o debate acerca do Socialismo fazendo a pergunta: aonde foi que deu certo? Compreendemos que além de uma má intenção existe uma limitação de compreensão da realidade bastante acentuado, afinal, esse debate é ampliado quando também perguntamos: o que é dar certo?

Vejamos as seguintes situações… Ao destacarmos o continente americano teremos apenas os EUA e o Canadá como nações economicamente desenvolvidas, os outros 30 países com alinhamento junto ao Capitalismo se encontram em condições de subdesenvolvimento ou em condições precárias de sobrevivência como Haiti, e também estão entre os mais desiguais Honduras, Colômbia, Brasil, Guatemala, Panamá e Chile. Os outros três países que completam a lista têm um alinhamento mais próximo com o socialismo são eles, Bolívia, Cuba e Venezuela.

O continente africano também apresenta uma realidade parecida com o americano, esse continente que foi empobrecido durante os últimos cinco séculos pelos países do centro europeu hoje apresenta os piores índices de desenvolvimento humano, com pouco mais de 50 países, a imensa maioria sobrevive em estado de miséria, não por suas condições naturais, mas pelo processo de exploração que esse continente sofreu pelas potências europeias que fortaleceram o capitalismo, ao mesmo tempo que deixaram várias nações africanas extremamente prejudicadas sobrevivendo hoje como países subalternos a um capitalismo excludente.

Podemos identificar uma certa prosperidade do capitalismo nos países centrais da Europa, contudo, estamos falando de mais de 200 países oficializados pela ONU, onde não se encontram um quinto desses países com prosperidade igual ou semelhantes aos EUA, Alemanha ou Inglaterra.

Concluo esse texto com alguns dados atuais sobre o país que é a referência hoje naquilo que se aproxima de um ideal socialista, esse país é Cuba, que há mais de 50 anos viveu sob um embargo econômico terrível, coisa que nenhum país capitalista suportaria por 5 meses, sem contar com as intempéries da natureza naquela região, Cuba com o regime político chega na segunda década do século XXI com os seguintes dados:

– Cuba dispõe da taxa de mortalidade infantil (4,6 por mil) mais baixa do continente americano – incluindo Canadá e EUA – e do terceiro mundo.

– A American Association for World Health aponta que “não há barreiras raciais que impeçam o acesso à saúde” e ressalta “o exemplo oferecido por Cuba, o exemplo de um país com a vontade política de fornecer uma boa atenção médica a todos os cidadãos”.

– Com um médico para cada 148 habitantes (78.622 no total), Cuba é, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), a nação melhor dotada do mundo neste setor.

– Segundo o Escritório de Índice de Desenvolvimento Humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, Cuba é o único país da América Latina e do Terceiro Mundo que se encontra entre as dez primeiras nações do mundo com o melhor Índice de Desenvolvimento Humano sobre três critérios, expectativa de vida, educação e nível de vida durante a última década.

– Segundo a Unesco, Cuba dispõe da taxa de analfabetismo mais baixa e da taxa de escolarização mais alta da América Latina.

– Segundo a Unesco, um aluno cubano tem o dobro de conhecimentos do que uma criança latino-americana. O organismo enfatiza que “Cuba, ainda que seja um dos países mais pobres da América Latina, dispõe dos melhores resultados quanto à educação básica”.

– Um informe da Unesco sobre a educação em 13 países da América Latina classifica Cuba como a primeira em todos os aspectos.

– Segundo a Unesco, Cuba ocupa o décimo sexto lugar do mundo – o primeiro do continente americano – no Índice de Desenvolvimento da Educação para todos (IDE), que avalia o ensino primário universal, a alfabetização dos adultos, a paridade e a igualdade dos sexos, assim como a qualidade da educação. A título de comparação, EUA está classificado em 25° lugar.

– Segundo a Unesco, Cuba é a nação do mundo que dedica a parte mais elevada do orçamento nacional à educação, com cerca de 13% do PIB.

– O Unicef enfatiza que “Cuba é um exemplo na proteção da infância”.

– Segundo Juan José Ortiz, representante da Unicef em Havana, em Cuba “não há nenhuma criança nas ruas. Em Cuba, as crianças ainda são uma prioridade e, por isso, não sofrem as carências de milhões de crianças da América Latina, que trabalham, são exploradas ou caem nas redes de prostituição”.

– O Unicef ressalta que Cuba é o único país da América Latina e do terceiro mundo que erradicou a desnutrição infantil.

– A primeira vacina do mundo contra o câncer de pulmão, a Cimavax-EGF, foi elaborada por pesquisadores cubanos do Centro de Imunologia Molecular de Havana.

– Em 2005, com a tragédia causada pelo furacão Katrina em Nova Orleans, Cuba ofereceu a Washington 1.586 médicos para atender as vítimas, mas o presidente da época, George W. Bush, rejeitou a oferta.

– O informe da ONU sobre “O estado da insegurança alimentar no mundo 2012” aponta que os únicos países que erradicaram a fome na América Latina são Cuba, Chile, Venezuela e Uruguai.

– Segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), “as medidas aplicadas por Cuba na atualização de seu modelo econômico com vistas a conseguir a soberania alimentar podem se converter em um exemplo para a humanidade”.

– Segundo o Banco Mundial, “Cuba é reconhecida internacionalmente por seus êxitos no campo da educação e da saúde, com um serviço social que supera o da maioria dos países em vias de desenvolvimento e, em alguns setores, é comparável ao de países desenvolvidos”.

– O Fundo das Nações Unidas para a População salienta que Cuba “adotou, há mais de meio século, programas sociais muito avançados, que permitiram ao país alcançar indicadores sociais e demográficos comparáveis aos dos países desenvolvidos”.

– Segundo a Anistia Internacional, as violações de direitos humanos são mais graves nos EUA do que em Cuba.

Se Cuba é classificado com um país “pobre”, devemos comparar a “pobreza” de Cuba com a pobreza dos países capitalistas para chegarmos a uma reflexão mais precisa sobre aonde o socialismo deu certo e deixarmos de lado certos reducionismos.

Jornalista e blogueiro.