53 anos do Golpe – “Joao Goulart, nao resistiu porque nao queria derramamento de sangue e divisao’


Do Instituto João Goulart 
POR RENATO DIAS

Dispositivo militar seria frágil diante da Operação Brother Sam, afirma a filha do presidente deposto pelo golpe de 1964
Família deixou Granja do Torto em 1º de abril, viajou para São Borja e depois aterrissou em Solimar. Jango chegou dia 4
Com os golpes no Uruguai e Argentina, Jango queria voltar ao Brasil e morte em 1976 é suspeita, frisa a historiadora

– Saí, dia 1º de abril, com o golpe, da Granja do Torto, em Brasília, com minha mãe Maria Thereza e meu irmão, João Vicente, e fomos para São Borja, Rio Grande do Sul. Depois, Uruguai, no dia 2. Para o Balneário de Solimar. O meu pai, João Goulart, deposto, chegou em 4 de abril.

Essas são as únicas recordações de Denize Goulart, hoje com 59 anos, do golpe de Estado promovido por fardados e civis no turbulento ano de 1964, no Brasil. A operação política e militar destituiu da presidência da República, João Belchior Marques Goulart. Um nacional-estatista em sua versão trabalhista. Ex-ministro do Trabalho de Getúlio Vargas, o “Pai dos Pobres”, e ex-vice-presidente da República de Juscelino Kubistcheck, autor do plano de metas, 50 anos em 5.

Denize Goulart nasceu em 29 de novembro de 1957, no Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa. Filha de João Goulart e de Maria Thereza Goulart, que um ano antes haviam tido João Vicente Goulart. Os dois se casaram em 1955. O fazendeiro de São Borja possuía 33 anos de idade. A mulher considerada a mais bonita do Brasil apenas 17 anos. A infância dos dois filhos até março de 1964 alternava viagens entre Rio de Janeiro, Brasília [DF] e Rio Grande do Sul.

– A família possuía a Fazenda Rancho Grande e a Granja São Vicente, onde passávamos as férias.

Três meses depois da chegada ao Balneário de Solimar, João Goulart transfere-se para Montevidéu, a Capital do Uruguai. Em 1973 o tempo fica nublado. Golpe civil e militar no País. Juán Domingos Perón ganha as eleições na Argentina e convida João Goulart para morar em Buenos Aires. A cidade mais charmosa da América Latina. Até que militares e civis deflagram um golpe de Estado e tomam o poder, em 24 de março do ano trágico de 1976.

– A tríplice A – Aliança Anticomunista Argentina – ameaçou sequestrar os filhos de João Goulart, João Vicente e Denize Goulart.

João Vicente, já casado com Estela Katz, embarca para Londres, Inglaterra. Depois, ao lado do pai, Denize Goulart muda-se para a Europa. Primeiro, os dois ficam 15 dias em Paris, França. Logo, logo embarcam para Londres. Ela possuía à época 18 anos de idade. No Velho Mundo, Jango encontrou-se com Tertuliano dos Passos e Pedro Toulois. Ele, então, retorna para a Argentina e depois para o Uruguai, onde mantinha negócios privados, relata a filha.

– João Goulart era visado – A Operação Condor já estava em funcionamento . A sua primeira preocupação era com a segurança dos filhos e da mulher, Maria Thereza. Apesar disso, nutria a esperança de voltar ao Brasil. É que os cenários na Argentina e no Uruguai estavam insustentáveis. O Plano B, caso não pudesse voltar ao Brasil, era a Europa.

A última vez que Denize Goulart o viu foi em outubro de 1976. É que nascera, em Londres, Khristofer Goulart, filho de João Vicente, que depois teria mais dois filhos, João Alexandre e Marcos Goulart. João Goulart os visitara. “Soube da morte dele, ocorrida em dezembro de 1976, por telefone”, informa. A minha mãe Maria Thereza conta que quando ele morreu, de madrugada, na cidade de Mercedes, Província de Corrientes, Fazenda Abra Perdomo, Jango sentira falta de ar e morrera em seguida, relata, emocionada. Uma morte suspeita, dispara.

– Cardíaco, ele fazia tratamento em Lyon, França, com médicos especializados e tomava medicamentos regularmente.

Existem suspeitas e dúvidas em relação à sua morte, registra. A autópsia não foi realizada, frisa. Denize Goulart aponta que Jango era vigiado pelas ditadura civis e militares do Brasil, Uruguai e Argentina e pela Operação Condor, consórcio multinacional de repressão política e militar na América Latina. No Brasil, o governo federal não queria a sua volta, explica. Se voltasse, poderia constituir em uma ameaça e voltar a exercer cargo público de relevância, atira.

O laudo diz que Jango teria morrido de “enfermidad”, confidencia. Três políticos de destaque no Brasil morreram de forma suspeita, aponta. Juscelino Kubistcheck, em agosto de 1976; João Goulart, em dezembro de 1976; Carlos Lacerda, em março de 1977,questiona. Os três integraram a Frente Ampla, recorda-se. O meu pai recebeu o seu maior adversário político, inimigo, Carlos Lacerda, em casa, no Uruguai, com um projeto de redemocratização, informa.

– Com a sua morte, voltei ao Brasil com meu irmão, João Vicente, a minha cunhada, Estela Katz, e meu sobrinho Khristofer Goulart, um bebê. Descemos no Rio de Janeiro e depois embarcamos para São Borja, Rio Grande do Sul. O sepultamento foi emocionante. Tancredo Neves e Pedro Simon destacaram a história do meu pai, a necessidade de Anistia e de redemocratização do Brasil. Era impressionante a quantidade de pessoas na celebração.

O doutor em História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense [UFF], Daniel Aarão Reis Filho,71 anos de idade, cita Marc Bloch, pesquisador francês morto na segunda guerra mundial [1939-1945], vê uma ‘estranha derrota’, em 1964, e questiona a inexistência de resistência ao golpe de Estado civil e militar que derrubou João Belchior Marques Goulart e implantou uma noite que durou 21 anos, como afirmam Flávia Tavares e Camilo Tavares.

– Jango não queria derramamento de sangue e nem dividir o Brasil como o Vietnan e a Coreia! O suposto dispositivo militar – do general Assis Brasil – revelou-se frágil e a Operação Brother Sam estava a postos para entrar em movimento. O golpe no Brasil teve a participação dos EUA.

A volta

Com a morte de Jango, Maria Thereza e João Vicente voltam para Porto Alegre. Denize Goulart segue o mesmo caminho. Depois, ela muda-se para o Rio de Janeiro, faz graduação em História na Pontifícia Universidade Católica [PUC – RJ], casa-se, tem duas filhas, Bárbara Goulart, soció-loga, e Isabela Goulart, bailarina, e divorcia-se. João Vicente separou-se e casou-se com Maria Rita, com quem teve três filhos: João Marcelo, Vicente Goulart e Dinarte Goulart, informa ela.

Jango teve aliados e amigos fiéis que frequentavam a sua residência no exílio. Integram a relação Waldyr Pires, Darcy Ribeiro, Doutel de Andrade, Bocaiúva Cunha, José Gomes Talarico. Além de Zelmar Micheline, assassinado em Buenos Aires. O exílio, forçado, durou 12 anos, desabafa. O pior é a violência simbólica de tentarem querer apagá-lo da história do Brasil Republicano, denuncia. É uma figura que precisa ser resgatada e não pode ser esquecida, diz

A historiadora Denize Goulart acabou de ler o livro ‘O Homem que Amava os Cachorros’, do escritor cubano Leonardo Padura. A obra conta a história trágica de Liev Davidovich Bronstein, ‘nom de guerre’ Leon Trotsky, errante que morreu na Cidade do México, assassinado por um agente de Josef Stálin, em agosto de 1940. Ela devorou ainda ‘Jango e Eu’, de João Vicente Goulart, seu irmão. Gostei, define. O melhor livro sobre 1964, porém , é de Jorge Ferreira:

– Jango, Uma Biografia.

O melhor filme, para ela, sobre 1964, Jango e a ditadura civil e militar no Brasil é ‘Jango – Como, quando e porque se derruba um presidente da República’, do diretor Silvio Tendler. A produção cinematográfica, de 1982, chegou às telas nos estertores da ditadura civil e militar, em 1984. O projeto de Denize Goulart, em 2017, é criar um centro cultural, o Espaço Jango. A sua expectativa é conseguir instalá-lo até o fim deste ano. Ela acha que em 2016 houve golpe no Brasil:

– Um golpe parlamentar, mas que não pode ser comparado com 1964.